Sic Notícias 5/5/2016

Duarte Pacheco Pereira – o herói esquecido

Duarte Pacheco Pereira – o herói esquecido
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Duarte Pacheco Pereira terá nascido em Lisboa, no ano de 1460. Era filho bastardo de João Pacheco e de Isabel Pereira, e tetraneto de D. Diogo Lopes Pacheco, um dos executores de Inês de Castro.

Estudos de historiadores da Universidade de Michigan revelam que Duarte Pacheco Pereira terá descoberto o Brasil em 1493. Sendo D. João II conhecido pela sua obsessão de ocultar informação politicamente sensível, sugere-se que somente vários anos após a assinatura do Tratado de Tordesilhas, a descoberta do Brasil terá sido oficialmente anunciada, atribuindo-se a proeza a Pedro Álvares Cabral. O tratado, assinado a 7 de Junho de 1494, contemplava que, se até ao dia 20 desse mês, fossem descobertas novas terras pelos navios castelhanos a mais de 250 léguas a oeste do meridiano de Cabo Verde, estas pertenceriam a Castela. Só depois desse período inicial, ficaria válida a regra das 370 léguas, de forma a incluir o território do Brasil – daí a necessidade de ocultar a sua existência.

Documentos relativos à viagem de Cabral referem um tripulante chamado Duarte Pacheco mas, provavelmente pelos mesmos motivos anteriores, ter-se-á decido encobrir a sua participação na viagem de 1500, uma vez que o próprio Duarte Pacheco Pereira foi uma das testemunhas que assinaram o Tratado de Tordesilhas. É de admitir, portanto, que o navegador-cosmógrafo terá acompanhado Cabral, uma vez que seria o único português com experiência comprovada naquela rota.

Segundo o mais importante biógrafo de Duarte Pacheco Pereira – o historiador Joaquim Barradas de Carvalho – o navegador português foi um génio comparável a Leonardo da Vinci. Com a antecipação de mais de dois séculos, Duarte Pacheco Pereira foi o responsável pelo cálculo do valor do grau de meridiano com uma margem de erro de apenas 4%. Foi ainda dos primeiros a utilizar a numeração árabe, que é usada actualmente, ao invés da numeração romana, corrente na época. O historiador opina que Duarte Pacheco Pereira foi das personalidades mais representativas do Renascimento Português: reflecte o universo da Idade Média, mas ao mesmo tempo projecta-se na modernidade.

A nau Espírito Santo, que capitaneou, foi efectivamente usada na sua viagem de Lisboa para Cochim. Contudo, no início de 1504, a mesma nau, dessa vez capitaneada por Pero d’ Ataíde, naufragou ao largo de Moçambique, quando regressava de Cochim, depois de se perder da armada que partira da Índia, em Janeiro desse ano.

Naubea, não sendo referenciada pelos historiadores, é protagonista de uma lenda portuguesa, sendo descrita por Gentil Marques em Lendas de Portugal como uma grande admiradora do navegador português, a quem rogou uma maldição que, pelo facto de Duarte Pacheco Pereira a ter rejeitado, o sujeitaria a uma vida de miséria, e se estenderia pelos seus descendentes das três gerações seguintes.

Após o regresso da Índia, em 1505, Duarte Pacheco Pereira encetou a escrita do livro Esmeraldo de Situ Orbis, no qual refere uma viagem secreta ao Brasil, a mando de D. Manuel I, realizada no ano de 1498. A obra, que só viria a ser publicada em 1892, nunca chegou a ser terminada.

Em 1508, D. Manuel I encarregou o navegador de capturar o corsário francês Mondragón, que actuava entre os Açores e a costa portuguesa, onde atacava as naus vindas da Índia. No ano seguinte, Duarte Pacheco Pereira capturou-o ao largo do cabo Finisterra.

Em 1512, casou com Antónia de Albuquerque, filha de Jorge Garcês, nomeado secretário de D. Manuel I, e neta de Duarte Galvão, que fora embaixador de D. João II, antes de se exilar em Castela.

Do seu casamento com Antónia, nasceram seis filhos e duas filhas. Recebeu de D. Manuel I um dote de 120.000 reais, que lhe foi pago em várias prestações, até ao ano de 1515.

Desconhece-se a verdadeira origem de Lisuarte, filho ilegítimo de Duarte Pacheco Pereira. O jovem terá morrido na Índia, em 1509, numa batalha contra os mouros.

Em 1519, D. Manuel I nomeou Duarte Pacheco Pereira Governador de São Jorge da Mina, na Guiné. Três anos depois, e a mando de D. João III, regressaria a Lisboa, acorrentado a ferros.

Os motivos para o seu encarceramento não são conhecidos com exactidão. O rei terá sido convencido, por conspiradores e invejosos, de que Duarte Pacheco Pereira teria contrabandeado ouro, enquanto Governador de São Jorge da Mina. Contrastando com essa teoria, e segundo a documentação, foi curiosamente durante a sua governação que se exportou a maior quantidade de ouro daquela região para o reino. O navegador viria a provar a sua inocência no ano seguinte, tendo depois sido libertado e auferido uma tensa compensatória de 50.000 reais por parte do rei.

Já sexagenário, e insatisfeito com as atitudes de D. João III, Duarte Pacheco Pereira terá chegado a manifestar desejo de servir o imperador Carlos V, algo que, contudo, nunca se concretizou.

Com ou sem a maldição de Naubea, a verdade é que em 1533, segundo relata o cronista Damião de Góis, o navegador português viria a morrer na miséria, deixando a sua família à beira da pobreza.

Estudos recentes de Andreia Martins de Carvalho e Pedro Pinto levam, no entanto, a crer que essa crónica poderá ser imprecisa, uma vez que existe documentação entretanto divulgada, que comprova que Duarte Pacheco Pereira tudo fez, para que após a sua morte, a família não passasse dificuldades económicas. Antónia de Albuquerque terá herdado uma tensa do falecido marido e era ainda rendeira de propriedades. Antónia viria a falecer no ano de 1565.

Sete anos depois, publicava-se pela primeira vez Os Lusíadas em que o poeta Luís Vaz de Camões perpetuava o nome de Duarte Pacheco Pereira, chamando-lhe grão Pacheco, Aquiles Lusitano:

 

«E canta como lá se embarcaria

Em Belém o remédio deste dano,

Sem saber o que em si ao mar traria,

O grão Pacheco, Aquiles Lusitano.

O peso sentirão, quando entraria,

O curvo lenho e o férvido Oceano,

Quando mais n’água os troncos que gemerem

Contra sua natureza se meterem.»

 

Imagem: Duarte Botelho

Já rimos como alguém se ri numa vida inteira

IMG_5555Não começou ontem. Foi noutra vida.
Mas nesta já dancei contigo ao sabor do vento.
Não te conheci ontem. Foi há muitas vidas.
Mas já rimos como alguém se ri numa vida inteira.
Não foi por balançarmos ontem, sempre sentimos o balanço.
Mas já sentimos a China balançar, mesmo à nossa beira.
O nosso coração não pula desde ontem. Sempre cantou uma canção.
Mas já temos tantas. Só nossas. Uma bênção.
As pontes não são de hoje. Sempre lá estiveram.
Mas se os ventos as levam, encontramo-las de novo.
Com a força de Deus, que se arrasta a um povo.
E tudo recomeça. Com o teu sorriso. Com o teu abraço.
Desde que nasce o dia, até ao seu cansaço.

in «Crónicas de um Amor por uma Princesa», Duarte Nuno Braga

Dois Dias

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Por que inventou Ele fins-de-semana de apenas dois dias? De ansiedade em ansiedade se constrói este amor e, quando dou por ela, já se transformou em calmaria, que nenhum vento derruba, nenhuma onda desapazigua, desnudando o teu corpo, envolto pela tua alma que se entrelaça na minha.
Perguntei-Lhe a razão de tal malvadez.
“Porquê somente dois dias?”
“Como assim, apenas dois dias?” – reagiu, incrédulo.
“O amor das vossas almas acontece todos os dias. Sonham um com o outro, sentem-se, fundem-se…”
“Então por que nos concedes os fins-de-semana?” – tentei compreender.
“Porque também preciso de descansar.” – e rimos os dois.

in «Crónicas de um Amor por uma Princesa»,  Duarte Nuno Braga
Imagem: newhdwallpapersin.com

A Confissão do Navegador

A Confissão do NavegadorÉ com uma alegria imensa que vejo o meu romance histórico ser publicado pela Editorial Presença.

Dia 4 de Maio estará disponível em todas as livrarias do país.

Sinopse

Corre o ano de 1493. D. João II convida o navegador Duarte Pacheco Pereira a conhecer Cristóvão Colombo. Joga-se o destino de Portugal e do próprio Duarte Pacheco Pereira, incumbido de uma missão secreta que o leva aos confins do Atlântico. Neste empolgante romance histórico desvenda-se a figura pouco conhecida do navegador descrito por Camões como o «Aquiles lusitano». Do perigo dos mares ao calor da Índia e da batalha, somos levados para uma época envolta em segredos, conspirações e relações proibidas. A ambição de um reino muda a vida de um homem dividido numa busca espiritual entre a lealdade e o amor.

A tua história é escrita por ti

Escreva uma boa história em 30 segundos

Curso de Publicação e distribuição independentes de livros digitais

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SINOPSE

Não gostava de poder publicar os seus próprios textos? E aquele projeto que ficou na gaveta, não merece uma oportunidade? Descubra o autor indie que há em si e publique os seus próprios livros, sem estar dependente de editores e distribuidores.

DESCRIÇÃO

Neste curso, vai aprender a publicar os seus próprios manuscritos de forma simples e rápida. Em poucas horas, ficarão disponíveis para compra nas principais lojas de venda de livros digitais, incluindo Amazon, Apple Store, FNAC, Kobo, e muitas outras.

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Dar ferramentas para a publicação independente de material literário digital.

DESTINATÁRIOS

Todos aqueles que gostariam de publicar os seus próprios manuscritos em formato digital.

PROGRAMA

1.ª sessão

  • O que pode ser publicado vs. o que não pode ser publicado
  • Quais as lojas de venda online em que se pode publicar e-books
  • Como funciona o pagamento de direitos aos autores independentes
  • A diferença de formatação entre e-books e livros impressos
  • Formatação de um e-book

2.ª sessão

  • Preparação de uma capa
  • Especificações necessárias de um e-book para distribuição no mercado global
  • Plataformas de distribuição mais importantes: Amazon vs. Smashwords
  • Exemplo prático de publicação de um e-book

3.ª sessão

  • Técnicas de marketing para promoção de e-books.

4ª sessão

  • Construção de uma plataforma social de autor para divulgação da sua obra digital (e impressa)

Inscrições Abertas

Entrevista com Manuel Monteiro

«Tinha entregue» ou «tinha entregado»? Pelo visto, a língua portuguesa não tem sido muito bem tratada. Recentemente, Manuel Monteiro, que é formador profissional de Revisão de Textos, jornalista, revisor e autor, publicou o Dicionário de Erros Frequentes da Língua, que tem suscitado o interesse de muitos leitores. Todos nós estamos presos a muletas, muitas vezes erradas, que por se ouvirem e lerem com tanta frequência, nos fazem acreditar que estamos a falar correctamente. Conheci o Manuel Monteiro, e claro, não resisti a entrevistá-lo.

dicionario

Manuel Monteiro, muito obrigado por concederes esta entrevista. Como surgiu este gosto pela língua portuguesa?

Aprender palavras novas alarga-me a alma, eleva algo dentro de mim. Emerge ao espírito algo que estava latente, mas que não tinha forma, era difuso. É difícil explicar, as palavras são curtas para as nossas verdades mais fundas.

Lançaste recentemente o Dicionário de Erros Frequentes da Língua que denuncia os erros mais comuns. São apenas as pessoas comuns que os cometem, ou são também visíveis em comunicação pública?

São erros diários na linguagem pública. Qual o político ou jornalista que não emprega «ter lugar» no sentido de «acontecer»?, sendo o seu significado «ter cabimento». Quantas digníssimas figuras não escrevem «em anexo» nas missivas electrónicas?

Em o Dicionário de Erros Frequentes da Língua é possível ler o seguinte texto:
Em anexo
Vírus linguístico do mundo digital. Enquanto adjectivo, «anexo» significa «apenso, ligado a, junto a, contíguo, incorporado, atado, preso». O documento anexo. As imagens anexas. Nunca «em anexo». Como não diríamos «o ficheiro em apenso», «o ficheiro em incorporado». Querendo utilizar-se enquanto nome, diga-se que o «anexo contém tal documento ou refira-se «o ficheiro no [em + o] anexo [nome]». Corresponde ainda à primeira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo anexar. «[Eu]» anexo os documentos que me solicitou.

Quais são as principais razões para esse fenómeno?

A tecnologia. Temos uma pletora de comentários nas redes sociais, temos de responder a muitos SMS, a muitas mensagens electrónicas e temos de o fazer muitas vezes de forma premente – essa vertigem não permite fazer amor com as palavras. E depois há todos aqueles ícones, o LOL, a escrita abreviada, os capas e os xis. E será um truísmo dizer-se que a palavra vai perdendo o fulgor para a imagem. Permite-me citar Theodore Kaczynski (Technological Slavery): « The entertainment industry serves as an important psychological tool of the system, possibly even when it is dishing out large amounts of sex and violence. Entertainment provides modern man with an essential means of escape. While absorbed in television, videos, etc., he can forget stress, anxiety, frustration, dissatisfaction. Many primitive peoples, when they don’t have work to do, are quite content to sit for hours at a time doing nothing at all, because they are at peace with themselves and their world. But most modern people must be contantly occupied or entertained, otherwise they get “bored,” i.e., they get fidgety, uneasy, irritable.» Ademais, os dicionários digitais não têm a qualidade dos dicionários antigos da língua que sobrevieram ao tempo, como a Wikipédia não tem o rigor – está a quilómetros e quilómetros – de uma enciclopédia em papel. São, contudo, essas fontes de longe mais consultadas! Conheço pessoas que se riem quando falo de consultar a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. As pessoas não imaginam a quantidade de erros ou, eufemisticamente falando, de «desvios da norma» dos dicionários digitais, que rapidamente abonam qualquer coisa que seja dita com o significado que a moda lhe atribuir. Se se começar a dizer «batata» para exprimir algo «agradável», aí estará nos dicionários digitais amanhã. Vê isto e espanta-te: http://www.dicio.com.br/reque-reque/

Naquele sítio, pode ler-se:

Significado de reque-reque

m.
Instrumento de fricção, usada por pretos.
(T. onom.)

“Pelos vistos, desde há imensos anos atrás que a saúde ao nível da língua portuguesa está mal e porcamente.” A frase anterior pode parecer correcta para algumas pessoas, mas não é bem assim, pois não?

Pelo visto; a não coabitação de «desde há»; «imensos» só se cada um dos anos fosse imenso; remover o «atrás»; substituir «ao nível», dado que não há nenhum nível mensurável e objectivamente definido; mal e parcamente.

Que tipo de erros ouves e lês com maior frequência e que mais te perturbam? Para alguém atento como tu, não deve ser fácil conviver com isso…

São tantos… Eleger meia dúzia é tão difícil! O que mais me perturba é o «já chegas-te a casa»? É capaz de matar uma paixão num instante. Perturba-me que a capacidade de metaforização esteja progressivamente associada à tecnologia. «Tens de fazer reset do que ele te disse», «certo, já fiz refresh», «tenho de fazer um update sobre o assunto». A técnica deixou de ser instrumental, uma instrumento que se usa e ponto final!, passou a ser um fim em si mesmo. Perturba-me também a ressonância religiosa da tecnologia, como «salvar» um documento, «estamos todos ligados» – religião é precisamente religar.

No que diz respeito à literatura nacional, os autores portugueses escrevem sem erros?

Não quero criticar colegas. Não há livros sem erros ou, mais bem dito, não há garantidamente livros sem gralhas. Gralha implica ser nítido que o erro não deriva do desconhecimento.

Por vezes, fico com a ideia de que certos livros editados não foram devidamente revistos. Há falta de revisores?

Há cada vez mais editoras a dispensar revisores para poupar nos custos. Sobre isso, acresce, nos últimos tempos, uma procura do preço mais barato em detrimento da qualidade.

O trabalho de um revisor é muito minucioso. Chega ao ponto de ler cada palavra, letra por letra. Como é que ele consegue, ao realizar este tipo de leitura, não descurar do próprio conteúdo?

Com treino, paciência, concentração e amor à leitura. O revisor tem de ser como o gigante da mitologia Argos, que tinha cem olhos espalhados pelo corpo. E nenhum deles pode adormecer. O olho dos particípios passados, o do infinitivo pessoal e impessoal, o do clítico, o das palavras repetidas, o da formação de plurais de nomes compostos, o dos pleonasmos não intencionais e tantos outros.

Que conselhos podes oferecer aos vários profissionais da escrita, para que possam melhorar a qualidade dos seus textos?

Ler Rodrigo de Sá Nogueira, Vasco Botelho de Amaral, Napoleão Mendes de Almeida.

 

Sobre Manuel Monteiro

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Nasceu em Lisboa em 1978. Trocou os números pelas letras, quando, depois de se licenciar em Economia, tirou uma pós-graduação em Jornalismo (ISCTE) e um curso de Revisão de Textos, na Universidade Católica.

Já trabalhou como revisor literário da Editora Objectiva, da Planeta Editora, da Pergaminho, da Dinalivro, da Pedra da Lua, entre outras, durante oito anos, actividade que continua a exercer.

Foi colaborador do Ciberdúvidas. Exerce também a actividade de jornalista, sendo director da revista Portela Magazine e tendo já escrito para a Sábado, Os Meus Livros, O Independente, A Capital. Como autor, tem obra publicada na área da ficção (no ano de 2012, O Suave e o Negro pela Quidnovi), do conto e da poesia. Venceu alguns concursos literários, dos quais se destaca recentemente o Novos Talentos FNAC Literatura 2012.

“Um escritor que não sente e apenas observa, não é um escritor. É um cronista.”

Um escritor que não sente e apenas observa, não é um escritor. É um cronista.