Entrevista com Manuel Monteiro

«Tinha entregue» ou «tinha entregado»? Pelo visto, a língua portuguesa não tem sido muito bem tratada. Recentemente, Manuel Monteiro, que é formador profissional de Revisão de Textos, jornalista, revisor e autor, publicou o Dicionário de Erros Frequentes da Língua, que tem suscitado o interesse de muitos leitores. Todos nós estamos presos a muletas, muitas vezes erradas, que por se ouvirem e lerem com tanta frequência, nos fazem acreditar que estamos a falar correctamente. Conheci o Manuel Monteiro, e claro, não resisti a entrevistá-lo.

dicionario

Manuel Monteiro, muito obrigado por concederes esta entrevista. Como surgiu este gosto pela língua portuguesa?

Aprender palavras novas alarga-me a alma, eleva algo dentro de mim. Emerge ao espírito algo que estava latente, mas que não tinha forma, era difuso. É difícil explicar, as palavras são curtas para as nossas verdades mais fundas.

Lançaste recentemente o Dicionário de Erros Frequentes da Língua que denuncia os erros mais comuns. São apenas as pessoas comuns que os cometem, ou são também visíveis em comunicação pública?

São erros diários na linguagem pública. Qual o político ou jornalista que não emprega «ter lugar» no sentido de «acontecer»?, sendo o seu significado «ter cabimento». Quantas digníssimas figuras não escrevem «em anexo» nas missivas electrónicas?

Em o Dicionário de Erros Frequentes da Língua é possível ler o seguinte texto:
Em anexo
Vírus linguístico do mundo digital. Enquanto adjectivo, «anexo» significa «apenso, ligado a, junto a, contíguo, incorporado, atado, preso». O documento anexo. As imagens anexas. Nunca «em anexo». Como não diríamos «o ficheiro em apenso», «o ficheiro em incorporado». Querendo utilizar-se enquanto nome, diga-se que o «anexo contém tal documento ou refira-se «o ficheiro no [em + o] anexo [nome]». Corresponde ainda à primeira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo anexar. «[Eu]» anexo os documentos que me solicitou.

Quais são as principais razões para esse fenómeno?

A tecnologia. Temos uma pletora de comentários nas redes sociais, temos de responder a muitos SMS, a muitas mensagens electrónicas e temos de o fazer muitas vezes de forma premente – essa vertigem não permite fazer amor com as palavras. E depois há todos aqueles ícones, o LOL, a escrita abreviada, os capas e os xis. E será um truísmo dizer-se que a palavra vai perdendo o fulgor para a imagem. Permite-me citar Theodore Kaczynski (Technological Slavery): « The entertainment industry serves as an important psychological tool of the system, possibly even when it is dishing out large amounts of sex and violence. Entertainment provides modern man with an essential means of escape. While absorbed in television, videos, etc., he can forget stress, anxiety, frustration, dissatisfaction. Many primitive peoples, when they don’t have work to do, are quite content to sit for hours at a time doing nothing at all, because they are at peace with themselves and their world. But most modern people must be contantly occupied or entertained, otherwise they get “bored,” i.e., they get fidgety, uneasy, irritable.» Ademais, os dicionários digitais não têm a qualidade dos dicionários antigos da língua que sobrevieram ao tempo, como a Wikipédia não tem o rigor – está a quilómetros e quilómetros – de uma enciclopédia em papel. São, contudo, essas fontes de longe mais consultadas! Conheço pessoas que se riem quando falo de consultar a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. As pessoas não imaginam a quantidade de erros ou, eufemisticamente falando, de «desvios da norma» dos dicionários digitais, que rapidamente abonam qualquer coisa que seja dita com o significado que a moda lhe atribuir. Se se começar a dizer «batata» para exprimir algo «agradável», aí estará nos dicionários digitais amanhã. Vê isto e espanta-te: http://www.dicio.com.br/reque-reque/

Naquele sítio, pode ler-se:

Significado de reque-reque

m.
Instrumento de fricção, usada por pretos.
(T. onom.)

“Pelos vistos, desde há imensos anos atrás que a saúde ao nível da língua portuguesa está mal e porcamente.” A frase anterior pode parecer correcta para algumas pessoas, mas não é bem assim, pois não?

Pelo visto; a não coabitação de «desde há»; «imensos» só se cada um dos anos fosse imenso; remover o «atrás»; substituir «ao nível», dado que não há nenhum nível mensurável e objectivamente definido; mal e parcamente.

Que tipo de erros ouves e lês com maior frequência e que mais te perturbam? Para alguém atento como tu, não deve ser fácil conviver com isso…

São tantos… Eleger meia dúzia é tão difícil! O que mais me perturba é o «já chegas-te a casa»? É capaz de matar uma paixão num instante. Perturba-me que a capacidade de metaforização esteja progressivamente associada à tecnologia. «Tens de fazer reset do que ele te disse», «certo, já fiz refresh», «tenho de fazer um update sobre o assunto». A técnica deixou de ser instrumental, uma instrumento que se usa e ponto final!, passou a ser um fim em si mesmo. Perturba-me também a ressonância religiosa da tecnologia, como «salvar» um documento, «estamos todos ligados» – religião é precisamente religar.

No que diz respeito à literatura nacional, os autores portugueses escrevem sem erros?

Não quero criticar colegas. Não há livros sem erros ou, mais bem dito, não há garantidamente livros sem gralhas. Gralha implica ser nítido que o erro não deriva do desconhecimento.

Por vezes, fico com a ideia de que certos livros editados não foram devidamente revistos. Há falta de revisores?

Há cada vez mais editoras a dispensar revisores para poupar nos custos. Sobre isso, acresce, nos últimos tempos, uma procura do preço mais barato em detrimento da qualidade.

O trabalho de um revisor é muito minucioso. Chega ao ponto de ler cada palavra, letra por letra. Como é que ele consegue, ao realizar este tipo de leitura, não descurar do próprio conteúdo?

Com treino, paciência, concentração e amor à leitura. O revisor tem de ser como o gigante da mitologia Argos, que tinha cem olhos espalhados pelo corpo. E nenhum deles pode adormecer. O olho dos particípios passados, o do infinitivo pessoal e impessoal, o do clítico, o das palavras repetidas, o da formação de plurais de nomes compostos, o dos pleonasmos não intencionais e tantos outros.

Que conselhos podes oferecer aos vários profissionais da escrita, para que possam melhorar a qualidade dos seus textos?

Ler Rodrigo de Sá Nogueira, Vasco Botelho de Amaral, Napoleão Mendes de Almeida.

 

Sobre Manuel Monteiro

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Nasceu em Lisboa em 1978. Trocou os números pelas letras, quando, depois de se licenciar em Economia, tirou uma pós-graduação em Jornalismo (ISCTE) e um curso de Revisão de Textos, na Universidade Católica.

Já trabalhou como revisor literário da Editora Objectiva, da Planeta Editora, da Pergaminho, da Dinalivro, da Pedra da Lua, entre outras, durante oito anos, actividade que continua a exercer.

Foi colaborador do Ciberdúvidas. Exerce também a actividade de jornalista, sendo director da revista Portela Magazine e tendo já escrito para a Sábado, Os Meus Livros, O Independente, A Capital. Como autor, tem obra publicada na área da ficção (no ano de 2012, O Suave e o Negro pela Quidnovi), do conto e da poesia. Venceu alguns concursos literários, dos quais se destaca recentemente o Novos Talentos FNAC Literatura 2012.

Entrevista com Pedro Jardim

 

Pedro JardimSe os leitores de policiais ainda não se depararam com “O Monstro de Monsanto” é porque andam muito distraídos. Tenham cuidado pois ele anda em toda a parte. E nós fomos falar com o seu autor Pedro Jardim, que não consegue esconder o entusiasmo.

 

Sociólogo, pintor, chefe de polícia e escritor. Como consegues conciliar toda essa actividade?

É verdade, Duarte! E não só! Falta ainda mencionar os meus papéis sociais de marido e pai. E pergunto eu (de facto): como se consegue ser marido, pai, chefe de polícia, sociólogo, escritor e pintor (apesar de não pintar há um par de anos)? Ora pois bem. Poderei responder e dizer que tudo tem a ver com aquilo que escolhes, com aquilo que escolhemos ser, que nos faz sentir bem. Essa escolha vai, por sua vez, desdobrar-se em outras escolhas, em diferentes caminhos, que nos marcam e moldam enquanto persona. E essa persona, esse Eu, neste caso, não sabe ser, não sabe existir, se não for isso tudo. São todos esses pedaços de Pedro que fazem de mim o que sou hoje. Se consigo conciliar tudo? Sim, consigo, e faço-o com imenso gosto. Se pensarmos um pouco em Fernando Pessoa – um dos meus poetas favoritos, senão o meu poeta de eleição –, imaginamos, sem qualquer sombra de dúvidas, numa multiplicidade de seres, de sentires, de haveres. Sou um pouco assim. Existe em mim um Joaquim Pedro que é colega de escola e faculdade; um Barradas para os colegas de trabalho e um Pedro escritor, pintor, pai e marido, filho e irmão. Se amas aquilo que fazes, se corres e não te cansas – como diz o ditado popular –, se esse desdobramento de papéis te completa, se as máscaras que usas são a tua essência; então, porque não sê-lo? É difícil, eu sei; trabalhar por turnos é muito complicado. Contudo, apesar disso, vou conseguindo conciliar o meu trabalho e as inúmeras apresentações que tenho, sobretudo, nos agrupamentos de escolas, bibliotecas e livrarias que vou com o meu livro de literatura para infância Gigante Gigantão. Aquele que estou a promover na comunidade escolar este ano lectivo. Já estou perto das 30 apresentações este ano. Isto, não contando com as apresentações do thriller que acabei de editar, O Monstro de Monsanto e as entrevistas que tenho marcadas devido a essa edição. A minha agenda é muito apertada, confesso. Mas os bichos-carpinteiros não me deixam estar quieto; é como se a adrenalina fosse o meu sangue e se o meu sangue não soubesse viver sem ela. E não é precisamente isso que nos mantém vivos?

O Monstro de MonsantoO teu thriller “O Monstro do Monsanto” está em destaque em todas as livrarias, na TV, na rádio. Qual o teu segredo para tanto mediatismo?

O Monstro de Monsanto é o meu primeiro romance, apesar de ser a minha quinta obra literária. Esse “mediatismo”, “visibilidade”, deve-se a alguns factores. Poderei dizer que depende, claramente, de um percurso perfeitamente articulado. Um percurso que todos os livros deveriam ter, ou, pelo menos, mereciam ter. Em primeiro lugar, deve-se – para mim o factor mais importante – ao facto de ter uma editora que acreditou no projecto desde o primeiro dia. E quando se fala numa editora como a Esfera dos Livros, é ter o privilégio de trabalhar com uma equipa extremamente capaz, que divulga, que está presente, que faz chegar o livro onde é preciso, que acredita. E para se acreditar é necessário ter uma paixão enorme, inegável. E isso faz toda a diferença. O autor tem de ter valor, sim. A sua obra tem de deixar uma marca, também. Convém ser diferente, sem dúvida. Se assim não fosse, como chegaríamos nós (autores) aos leitores? Mas sem uma editora assim, seria mais complicado. Sem pessoas como a Sofia, a Rita, a Margarida, o Rui, não, não chegaria muito longe. Daí dizer que sou um privilegiado. Tenho conhecido pessoas fantásticas neste meu percurso enquanto escritor. Depois de vencer o prémio Mais Literatura 2013, conseguir uma edição com a Esfera dos Livros foi, para mim, um enorme reconhecimento. Com eles sinto que chego ao leitor, com a sua ajuda vejo o meu livro em destaque em todas as livrarias e grandes superfícies comerciais, que tem estado nas novidades literárias de algumas revistas e jornais nacionais, que passa nos noticiários das rádios e programas de televisão, que é falado na rua, que passa de mão e mão, que é lido. Não quero parecer um falso modesto, julgo que devemos dizer as coisas nos momentos certos, mas não tenho segredos para essa tal “visibilidade”. Ela não seria possível sem parceiros à altura e sem trabalho, muito trabalho. Aqui não há segredos; há a Esfera dos Livros. Em segundo lugar, poderia destacar o facto de ser polícia e de ter escrito um policial. Além de ser chefe de Polícia, tenho experiência em investigação criminal e isso aguçou a curiosidade dos leitores, dos livreiros e da comunicação social. Ainda no outro dia falava com o escritor Alexandre Honrado que me disse: “Pedro, o teu romance tem andado de mão em mão e todos gostam. Julgo que és o primeiro polícia a saber escrever policiais.” E eu fiquei sem palavras. Uma pessoa de enorme valor, com um percurso inegável no mundo literário, dizer-me isto assim. É de ficar sem palavras. Eu gosto de acreditar que escrevi um livro diferente. Que por esse motivo está, aliado à ajuda e experiência da Esfera dos Livros, a ter essa dita “visibilidade”.

Ouvi numa entrevista recente o teu apelo aos leitores para darem uma oportunidade aos escritores nacionais. Achas que os autores portugueses não são convenientemente valorizados?

Peremptoriamente, não considero que os autores não sejam reconhecidos. Existem portugueses de grande valor, escritores conhecidos e reconhecidos mundialmente. O meu ponto de vista prende-se com o facto de que temos valores que não são aproveitados, que apesar de mostrarem valor, não são ouvidos, que não chegam onde deveriam chegar. Muitos têm de pagar do seu bolso para editar. No mundo editorial, é difícil dar o passo e ser reconhecido, é necessário muito trabalho, muito empenho, muita “estrada”, e isso reflecte-se um pouco no leitor, porque depende da oferta. Quem escreve/tenta editar sabe do que falo, sobretudo os escritores emergentes. Eu sei, depende do gosto de cada um, depende do mercado, da moda, da “onda”; mas quando digo que se deve dar oportunidade aos autores nacionais, quero dizer que existem pessoas que devem ser lidas e que para muitos leitores não passam de perfeitos desconhecidos, porque simplesmente não chegam às livrarias. Julgo que as oportunidades geram confiança e é essa confiança que deve ser depositada nos autores nacionais.

 

Um bom livro encontra sempre uma editora disposta a publicá-lo? Não me refiro aos casos em que os autores pagam a própria edição.

Esta questão, Duarte, vem um pouco no seguimento da pergunta que me fizeste anteriormente. Isto, porque um bom livro pode não ser editado. Ou, por outro lado, é editado mas não chega ao leitor em geral. Chega à família, aos amigos, aos amigos dos amigos nas redes sociais, não mais. Existem aqui duas perspectivas que poderemos retirar desta questão, que se dividem na interpretação do autor e na do editor. Eu não sou editor; já pensei em sê-lo. Os autores não ganham quase nada nos seus livros. Mas, neste momento, só te consigo responder enquanto autor, só consigo dizer-te o que sinto enquanto escrevente, como pessoa que vai conhecendo aos poucos o mundo editorial, apesar de considerar que sou muito novo nestas andanças. Um bom livro encontra sempre uma editora, sim encontra. Encontrar, encontra. Mas pode não ser editado por diversas razões; poderei elencar algumas: não ter a qualidade exigida; o autor não ser suficientemente conhecido; questões de planeamento/estratégia; número de projectos em lista de espera; a obra não se enquadrar nas colecções implementadas pelo editor. Isto não considerando, tal como me pedes, os casos em que o autor paga para editar. Isso é outra conversa e, nesses casos, os livros são maioritariamente editados porque a meta e os objectivos (na minha opinião) também são diferentes. Um editor pequeno não tem as mesmas “armas” que um grande editor, não tem a mesma máquina, não possui, sequer, a mesma distribuição. O mundo editorial pode ser, em certa medida – talvez para quem não conhece o meio, ou pelo senso comum –, encarado como sendo um pouco elitista. Como se fosse um nicho onde só alguns conseguem entrar. Que só se conseguem edições através de conhecimentos de amigos, que conhecem outros amigos e que esses, por sua vez, conhecem editores. Não concordo; falo por mim. Tudo o que tenho conseguido tem sido com muito esforço, com muita dedicação, com muito empenho. E se o livro for realmente bom, vai haver sempre um editor disposto a publicar. Desde que a variável constante se mantenha: é um bom livro, todas as outras variáveis dependentes (constrangimentos para a não edição) serão facilmente ultrapassáveis. Quando existe vontade e se tem a matéria-prima, tudo se consegue. O importante é não desistir.

 

E-book ou papel? O que nos reserva o futuro?

Face ao suporte, sou antiquado (em sentido figurado). Apesar de ser adepto das novas tecnologias, quem me tira um livro em papel, tira-me tudo. O livro para mim tem de ser sentido, cheirado, folheado. Enquanto objecto, o livro é para mim um tesouro. Escolho o papel, claramente. Agora, se me perguntares: e isso é pensar de forma responsável? Aí, responderia que não. Estou a ser egoísta. O futuro já se vê no presente: as constantes alterações climatéricas, a escassez de recursos, o desequilíbrio e as clivagens entre as nações/populações/comunidades, a desflorestação, o desmesurado crescimento demográfico mundial. Tudo isto são ingredientes catastróficos que poderão, um dia, sentenciar o fim do livro em papel, do livro como sempre o conhecemos. Prevejo que, com o tempo, o livro em papel irá dar lugar ao e-book, apesar de a grande maioria ainda preferir, como eu, a versão em papel.

 

Que importância teve no teu percurso enquanto escritor o curso de escrita criativa? E que outros factores foram também determinantes?

Eu sempre fui estudante. Desde que me conheço que o sou e vou continuar a sê-lo. A minha vida tem sido uma persistente formação contínua. Comecei a trabalhar com 16 anos para ajudar os meus pais e não foi isso que me impediu de continuar a estudar à noite e terminar o secundário. Vim para Lisboa e, quando ingressei na Polícia, continuei a estudar e tirei vários cursos de especialização, entre eles: o curso de investigação criminal. Cheguei a chefe de Polícia, decidi entrar na universidade e tirar o curso de Sociologia. É claro! Mais tarde, quando me confrontei com o facto de que teria de ter um percurso sério na escrita, lá fui eu tirar uns cursos de escrita criativa. Não tirei um, tirei alguns. Se foram suficientes? Diria que não. Aprende-se imenso, sempre. Os factores intrínsecos: a minha própria vida, a minha predisposição, a minha ânsia de querer fazer bem, de aprender. Mas considero que os factores que mais influenciaram o meu percurso foram, sem dúvida, aqueles que estão ligados a esses cursos: àquilo que se aprende e se nutre ao nível do “conhecimento”. É como desmontar o mundo, fazer o pino, ou revirar as nossas ideias e pensamentos. E isso faz falta, muita falta. Por outro lado, sem esses cursos, nunca teria conhecido a Margarida Fonseca Santos, o João Tordo ou o Pedro Chagas Freitas. É certo de que ninguém nos ensina a escrever, escrever no sentido da forma como cada um escreve, o escrever enquanto identidade. Isso é muito nosso, como se fosse uma impressão digital. Mas que esses cursos nos abrem os horizontes, que nos ajudam a melhorar, que nos mantém atentos àquilo que é mais importante, que nos amadurece, sem dúvida alguma. No meu caso, ajudou imenso e cimentou o meu percurso enquanto escritor.

Para terminar, que pergunta nunca te fizeram numa entrevista e que gostarias de responder? (E qual a resposta?)

Desculpa, Duarte, mas vou aproveitar este momento para uma célebre pergunta. Achei curioso esta tua abordagem final para esta entrevista e aproveito para brincar um pouco (brincar ao sério). A pergunta seria: o que dizem os teus olhos? (passando a publicidade ao programa do Daniel Oliveira) E eu responderia que: os meus olhos dizem e sentem que as minhas mãos não se cansam de escrever aquilo que me vai na alma, aquilo que me define enquanto: marido, pai, polícia, sociólogo, pintor, escritor. Porque sou como todos e todos podem ser: todas as coisas da vida.

Obrigado pela partilha Pedro. O teu exemplo ajudará certamente aqueles que estão a começar. Aproveito para te convidar a visitar a minha página com o testemunho de outros escritores.

Sobre o Pedro Jardim

Nasceu em Lisboa em 1976. Chefe de Polícia, licenciou-se em Sociologia, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa. Estudou escrita criativa com Margarida Fonseca Santos, João Tordo e Pedro Chagas Freitas. Apesar de ter nascido em Lisboa, foi no Alentejo, desde muito novo, que o autor descobriu o prazer das artes e pela literatura. Vencedor do prémio Mais Alentejo 2013, Pedro Jardim catica os seus leitores com a sua simplicidade, fazendo relembrar, a todos os instantes, as palavras de António Gedeão, de que: “o sonho comanda a vida”.
Bibliografia:
2011 – As Crónicas do Avô Chico, Chiado Editora
2012 – A Senhora da Tapada, Chiado Editora
2013 – O Dragão Rouxinol, Alfarroba Edições
2014 – Gigante Gigantão, Edições Livro Directo
2015 – O Monstro de Monsanto, Esfera dos Livros

Outras contribuições:
2011 – Antologia de Poesia contemporânea, Entre o sono e o sonho, Vol. III, Chiado Editora
2011 – Cem anos – 100 palavras, microconto, vários autores, Universidade Porto
2012 – Antologia de Poesia contempôranea, Entre o sono e o sonho, Vol. IV, Tomo 1
2013 – Colectânea de contos, A Magia das Chaves, vários autores, Edições Vieira da Silva
2013 – Manifesto Anti-crise, vários autores, Edições Vieira da Silva

Prémios literários:
2011 – Premiado a ingressar na obra Cem anos – 100 palavras
2013 – Prémio Mais Literatura 2013, pela revista Mais Alentejo, após votação do público

Website: www.escritorpedrojardim.com

Entrevista com Sara Rodi

Sara RodiConheci a Sara Rodi na sua apresentação de “O Livro da Tua Vida” e foi muito inspirador. A Sara, sempre disponível para partilhar a sua experiência aceitou deixar o seu testemunho no nosso blog.

Sara, tendo publicado mais de uma centena de livros, entre eles histórias infantis, romances históricos e mais recentemente “O Livro da Tua Vida” que se enquadra na categoria de auto-ajuda, o que te falta ainda fazer?

Falta-me fazer tanta coisa… Há, de facto, autores que descobrem o seu estilo, definem uma determinada forma de trabalhar os temas que lhes interessam, e são constantes no tipo de produto que oferecem. E isso é óptimo. Mas eu não nasci com o “dom da constância”. Tudo à minha volta e dentro de mim mexe comigo, e sinto permanentemente vontade de fazer milhares de coisas diferentes, a toda a hora. Na escrita e na vida, por dentro e por fora! Já pensei que isso fosse um defeito, hoje acho que é o que é. É o que sou. Talvez um dia seja outra coisa qualquer. Desde que seja autêntica naquilo que faço, e a escrita continuar a ser a expressão da minha verdade, penso que está tudo certo. (ainda que, do ponto de vista da “carreira”, possa dar tudo para o torto…).

Ficção científica. Neste momento ando com muita vontade de escrever ficção científica…

Fazendo uma pesquisa nos principais retalhistas de e-books apenas este teu último título aparece nas listagens. Representa uma viragem para o mundo digital? Já te habituaste a ler nesse formato?

Foi uma opção da editora, que tem vindo a apostar nesses formatos. Eu sempre tive alguma resistência, sou das que gosta do cheiro e do toque do papel, mas ano passado ofereceram-me um Kobo, e efetivamente tem-me sido muito útil, sobretudo em viagens. Depois há ainda a questão ambiental, que hoje em dia, com o planeta no estado em que está, é incontornável. São precisas, em média, 11 árvores para fazer uma tonelada de papel. Ou inventamos uma nova forma de o produzir (e têm surgido novidades neste campo), ou penso que teremos que tender, mais cedo ou mais tarde, para o digital. Até porque é no digital (com os manuais digitais, aulas em iPad, entre tantas outras novidades a serem testadas neste momento) que as novas gerações serão formadas…

É possível viver exclusivamente da escrita em Portugal? Que conselhos podes dar a quem se quer aventurar na magia das palavras?

É difícil viver da escrita em Portugal. Somos um mercado pequeno, com poucos leitores e muita oferta de livros. Se um potencial escritor começar a pensar no que pode ganhar com o seu livro, muito provavelmente não o escreve. Agora, não creio que seja isso o que leva alguém a escrever. Quem escreve, fá-lo porque tem algo para dizer, e sente em si uma estranha pulsão para o comunicar dessa forma. Às vezes isso agrada aos leitores, às vezes não, às vezes falha a editora, às vezes falha a comunicação, às vezes a distribuição… Pode falhar muita coisa pelo caminho, mas se um escritor é apaixonado pela escrita, não é isso que o vai impedir de continuar a escrever.

O meu conselho vai, portanto, nesse sentido: se sentem vontade de escrever, escrevam, no tempo que tiverem disponível. O resto virá com o tempo, a persistência, o mérito e/ou uma pitada de sorte. E se não vier… pelo menos escreveram. Fizeram o mais importante.

Sendo mãe de quatros filhos pequenos certamente que tens de gerir bem o tempo de forma a equilibrar a vida familiar com a profissional. Um escritor tem de ser muito metódico e disciplinado? 

Acho que não tem de ser, há escritores brilhantes que têm ritmos de produção caóticos. Mas eu não tenho hipótese de ser caótica. Para conseguir equilibrar a minha vida pessoal e profissional, sem falhar (pelo menos muito) com nenhuma das partes , tenho de ser muito disciplinada e disciplinar a chamada “inspiração”.

Isto não invalida que não acorde às 4 da manhã com uma ideia, ou que não escreva frases no talão do supermercado, porque não tenho mais nada à mão. Mas fora isso imponho-me prazos e horários, que vou reajustando semanalmente.

Um bom livro escrito por um principiante encontra sempre uma editora disposta a correr o risco? Que passos deve dar o aspirante a escritor para ver a sua obra publicada? 

Infelizmente, não. Às vezes é difícil que um bom livro chegue às mãos certas. As editoras recebem manuscritos todos os dias. Ainda que se comprometam a ler tudo o que recebem, isso pode demorar anos…

O conselho que dou, a quem está a começar, é que participe em concursos. Há vários concursos de escrita para quem não tem livros publicados, e os membros do júri são geralmente escritores ou pessoas ligadas ao mundo editorial, que dessa forma terão acesso ao que escreveram.

Outro conselho que posso dar é criar um blog, onde se possa ir partilhando aquilo que se escreve com os leitores. Isso também ajuda a criar rotinas de escrita, importantes para trabalhos mais longos (como um romance, por exemplo).

Por último, aconselho resiliência. Escreve quem tem necessidade de escrever. Publica quem é teimoso e não desiste facilmente. Regra geral, é esta a realidade.

Que pergunta nunca te fizeram numa entrevista e que gostarias de responder? (E qual a resposta?)

Acho que gostava que me perguntasses para que serve um escritor, e se ele tem alguma utilidade neste mundo tão “funcional”. Os artistas são tantas vezes tidos como gente que não serve para nada… E eu já me senti muitas vezes inútil, de facto. “Qual é o meu contributo para o mundo? Não salvo vidas, não construo casas, não acabo com a guerra nem a fome… Qual é mesmo a utilidade daquilo que eu faço?”

Acho que por isso mesmo escrevi “O Livro da Tua Vida”. Para tentar que as minhas palavras contribuíssem para qualquer coisa, ensinando os leitores a usar as suas próprias palavras como ferramenta para uma transformação pessoal, e depois global.

Sim, as palavras podem ser transformadoras. Transformam quem as escreve e transformam quem as lê. Às vezes ajudando apenas a fugir do dia-a-dia. Às vezes obrigando a refletir, a ver o mundo de uma outra forma. Outras vezes empurrando para a ação. E isso, mesmo não sendo de uma utilidade quantificável, pode ser por vezes tudo aquilo de que o mundo precisa para ficar melhor, mais livre, mais justo, mais verdadeiro.

Não sei se é esta a melhor resposta para a minha pergunta, mas continuarei em busca dela até que ma façam… 😉

Muito obrigado pelo teu contributo. Tenho a certeza que o teu trabalho tem sido muito inspirador para muitas pessoas. Convido-te a visitar a minha página que pretende ser um ponto de encontro de escritores já estabelecidos com aqueles menos experientes, que estão a dar os seus primeiros passos, tal como eu.

Sobre a Sara Rodi

Escreve o primeiro “livro” aos 6 anos, para oferecer à professora, e nunca mais conseguiu parar de escrever… Concluída a licenciatura em Ciências da Comunicação, surge a oportunidade, aos 22 anos, de publicar os seus primeiros romances – “A Sombra dos Anjos” e “Frio” (este reeditado em 2011) – mas envereda depois pela área do guionismo, colaborando na escrita de diversos de produtos televisivos, entre telenovelas (como “Queridas Feras”, “Mundo Meu” ou “Vingança”) e séries (como “Uma Aventura” ou “Bem-vindo a Beirais”), transformando alguns desses produtos em livro (como “O Olhar da Serpente” ou “Dancin’Days).

A maternidade fá-la render-se à literatura infanto-juvenil e hoje é autora de vários livros que apresenta em escolas e bibliotecas, como as coleções “Clássicos a Brincar”, “Leo, o Menino do Circo” ou “Portal do Tempo”. Cria também, com Ana Correia Tavares, a empresa “O Livro da Tua Vida”, que se dedica à escrita de biografias personalizadas com tiragens limitadas. Em 2012/2013 regressa ao romance, com “D. Estefânia, Um Trágico Amor” e “D. Teresa de Távora, a Amante do Rei” (Esfera dos Livros). Publica ainda “Respostas do Céu” (Marcador) e “O Livro da Tua Vida” (Lua de Papel), colaborando ainda na escrita e revisão de diversos livros para diferentes editoras. (sararodi.blogspot.pt/p/livros.html)

Mãe de uma família numerosa, relata no seu blog “Coisas de Pais” (coisasdepais.blogspot.com) as suas peripécias de mãe de 4 filhos, as suas maiores criações…

Entrevista com Susana Otão

Susana OutãoA escrita criativa é muitas vezes o ponto de partida para um aspirante a escritor. Tive o prazer de entrevistar Susana Otão, jornalista e formadora do curso de escrita criativa que se demonstrou muito disponível para desmistificar este mundo.

Susana, no curso de escrita criativa ajudas os teus alunos a enfrentar o monstro da folha em branco. Como se pode combater esse monstro?

Escrevendo. Voltando a escrever, a riscar, a deitar fora e a guardar. O estigma da folha em branco é um verdadeiro bloqueador, no entanto temos de o combater. Nas minhas oficinas de Escrita Criativa esse “monstro” começa por estar presente, mas vai-se desvanecendo porque à medida que os exercícios vão sendo desenvolvidos os participantes vão ficando cada vez mais confiantes.

Como é que a escrita criativa pode ajudar os novos talentos?

Estas oficinas não ensinam receitas milagrosas para escrever bem, nem tampouco indicam caminhos infalíveis para o sucesso. No entanto servem como desbloqueadores. Creio que todos os autores passam por processos de experimentalização na escrita. Basicamente estas oficinas servem para experimentar, testar novos caminhos, reencontrar a criatividade… Tudo elementos fundamentais para quem quer escrever.

Que tipo de exercícios é que os participantes vão encontrar?

Os exercícios são variados, muito lúdicos e divididos por algumas temáticas. Se numa sessão testamos uma escrita mais automática, mais virada para o “Eu”, numa outra podemos experimentar os cinco sentidos na escrita, aprofundar a caracterização de uma personagem ou estruturar uma narrativa.

Os autores que já têm uma carreira sólida também costumam participar nesses cursos?

Creio que as oficinas de Escrita Criativa são muitas vezes encaradas como a rampa para alguém se catapultar para a atividade. No entanto, essa não é a sua principal função. Creio que todos aqueles que querem simplesmente voltar a encarar a escrita com alguma pureza, que precisem de um empurrãozinho ou simplesmente que necessitem de praticar uma escrita mais lúdica podem e devem frequentar estas oficinas. Escritores “formados” incluídos.

Alguns dos autores portugueses consagrados são jornalistas. É mais fácil para um jornalista tornar-se escritor do que seria para um matemático ou qualquer outro profissional?

Não sei se é bem assim… Os jornalistas talvez porque já estão familiarizados com as palavras ou porque escrevem com regularidade podem encarar o processo da escrita com maior naturalidade ou talvez até conquistá-lo com maior fluidez. No entanto, qualquer pessoa que possua o “dom” e o alie ao trabalho, creio que conseguirá com facilidade encontrar caminho para as suas histórias.

Há o estigma de que um escritor deve ter mais de 25 anos para poder publicar um livro. Os teus alunos mais novos não têm criatividade e técnica suficientes para ver a sua obra disponível nas livrarias?

Ora aí está uma questão que gera muita controvérsia. Acredito realmente que a maturidade literária se ganha através das experiências, das vivências, dos anos. Por isso não estranho quando algum participante das oficinas de EC me diz que está há cinco ou 10 anos a trabalhar numa história. Está a maturá-la, num processo que não tendo objectivos comerciais se pretende que tenha valor quando finalmente vir a luz do dia. No entanto, existem sempre excepções à regra. E pelas salas da Escrever Escrever já passaram alguns “meninos” que me pasmaram pela sua maioridade na escrita. Há neles sim uma urgência para escrever, para até serem notabilizados, mas que com tenra idade conseguem fazer o que muitos estão anos para tentar alcançar. Talento? Genes? Trabalho? Não sei…mas há cada vez mais jovens a revelarem-se.

Gostas de ler em formato e-book? Que futuro vaticinas para esta tecnologia?

Pessoalmente odeio. Sou adepta das novas tecnologias, mas para ler…eu gosto mesmo é do papel. Folhear e espreitar o final do livro quando me apetecer, segurá-lo no colo, perder o marcador e voltar a ler páginas passadas e o gozo que me dá perder que tempos numa livraria a namorar os livros! Mas será, certamente, o futuro…. mas não o meu…que nada me dá mais prazer do que estar caladinha numa biblioteca a ler um livro e com uma pilha de outros ao lado.

Que recomendações darias a quem tem o sonho de se tornar escritor?

Não desistir. A escrita é um trabalho duro e faz sofrer muito quem se dedica a ela por isso é preciso ser persistente. É, igualmente, necessária muita disciplina, praticar muito de modo a desenvolver as capacidades criativas e literárias. No final gosto de deixar uma frase de Ernest Hemingway aos participantes das minhas oficinas. Hemingway vincava muito a necessidade de escrever com verdade: “Escreve, se puderes, coisas que sejam tão improváveis como um sonho, tão absurdas como a lua-de-mel de um gafanhoto e tão verdadeiras como o simples coração de uma criança”.

Obrigado, Susana. Aproveito para te convidar a ti aos leitores a fazer like nesta página que tem como objectivo inspirar futuros talentos.

Sobre a Susana Otão

Nasceu em Lisboa, em 1977. Na infância, quando lhe perguntavam o que queria ser quando fosse grande, dizia que queria… escrever! Licenciou-se em Comunicação Social, com a imprensa escrita em mente e depois fez-se ao papel. É jornalista e, nos últimos 15 anos, passou por várias áreas da Imprensa Escrita, ao serviço do Jornal de Notícias. Do Desporto, à Política, passando pelo Crime, escreveu muitas histórias, mas ao mesmo tempo e, apesar de saber que a realidade ultrapassa largamente a ficção, foi-se aventurando pelo universo da Escrita Criativa.

Frequentou diversos cursos na área para explorar a palavra e viajar com ela. Participou em várias oficinas onde a imaginação vagueou entre Personagens, Contos e até Guiões para Cinema. Colaborou com grupos de teatro, para os quais escreveu peças infantis e em 2008 juntou-se à Escrever Escrever para abraçar com palavras todos aqueles que vivem felizes neste reino das histórias criativas.

Podem visitar o perfil da Susana Otão aqui.