Jornal de Notícias – 08/07/2016

Quem descobriu, afinal, o Brasil?

Logo_jn

Sérgio Almeida


E se o Brasil não tiver sido descoberto por Pedro Álvares Cabral, como nos transmitiram desde sempre os manuais escolares, mas sim por um navegador hoje quase incógnito chamadoDuarte Pacheco Pereira? Este é o ponto de partida do primeiro romance de histórico deDuarte Nuno Braga, um apaixonado pelo mar e pelos livros que não duvida de que a História está repleta de “inverdades oficiosas”.


Como surgiu o interesse pela vida de Duarte Pacheco Pereira e, por arrasto, a ideia de criar uma biografia romanceada?

A descoberta do Brasil esteve sempre envolvida em mistério e é um assunto que me despertou um interesse redobrado, até porque também vivi naquele país, que considero fascinante. Quando começamos a pesquisar sobre o tema, torna-se incontornável a abordagem de que os portugueses lá passaram antes da viagem de Cabral, em 1500. E se há um nome comum às diferentes teorias, é o de Duarte Pacheco Pereira. À medida que fui encontrando pormenores da sua vida tornou-se claro que muito poderia ser escrito sobre aquele herói nacional, ao qual a História, provavelmente por razões políticas, não terá dado o lugar de destaque merecido. A maioria dos cronistas da época quinhentista não pouparam nos elogios àquele navegador, mas a verdade é que acabou por cair no esquecimento.


A tese de que foi Duarte Pacheco Pereira a descobrir o Brasil é defendida por alguns historiadores, mas é claramente minoritária. Como se explica que, perante a existência de provas documentais nesse sentido, subsista a tese de que foi Pedro Álvares Cabral o autor do feito?

Eu tinha essa ideia preconcebida. No entanto, estou convencido de que existem muitos historiadores a defender a teoria. Veja-se o caso do Prof. Jorge Couto e Prof. Contente Domingues, conceituados historiadores portugueses, que escreveram sobre o assunto. É claro que nas escolas continua a atribuir-se a proeza a Pedro Álvares Cabral. Devo salientar, contudo, que não deixa de ser referida a possibilidade de que os portugueses poderão lá ter estado anteriormente. Apesar de tudo, tenho algumas dúvidas se o assunto é devidamente aprofundado. Note-se ainda que, segundo alguns historiadores, na História não existem teorias oficiais, nem verdades absolutas. O que existem são correntes de pensamento, umas mais conhecidas e aceites do que outras.


Mais do que um navegador ou descobridor, ele era acima de tudo um combatente?

Naquela época os recursos eram escassos e homens como Duarte Pacheco Pereiraeram muito polivalentes. Ele não era só um navegador ou descobridor. Era cosmógrafo, um estratega militar, um soldado, um gestor, um governador, um lutador e até empreiteiro. Repare que, por exemplo, na descoberta do Brasil terá sido capitão da armada, na Guiné foi governador, em Tordesilhas foi testemunha oficial, em Cochim lutou contra o samorim com a sua própria espada, construiu uma fortaleza com as suas próprias mãos, definiu a estratégia de combate, que venceu. Nos dias de hoje é quase impensável alguém ter capacidades tão distintas.


Terminou o livro a admirar mais o homem?

A minha admiração por Duarte Pacheco Pereira não parou de crescer desde que escrevi as primeiras linhas do manuscrito até ao dia em que se transformou em livro. De uma certa forma, sinto que herdei a missão de enaltecer o seu nome. Sempre que o seu nome é referido, quer pela imprensa, quer nas redes sociais com base neste romance histórico, encho-me de orgulho por ter contribuído para o seu enobrecimento.


Acredita que a História está repleta de muitas outras “inverdades oficiosas”?

Estou convicto disso mesmo. Repare que nos dias de hoje, nem sempre nos contam de forma transparente aquilo que se passa na atualidade. Ora quando o presente se transformar em História, existirão sempre “inverdades oficiosas”, como lhe chama. Seria presunçoso da nossa parte acreditar que não existem muitas histórias semelhantes à espera de serem clarificadas. Cabe aos historiadores, de uma forma científica, ou aos romancistas, de uma forma bem mais informal, descobri-las, estudá-las e publicá-las. A História é uma ciência dinâmica, em constante evolução e é também esse facto que a torna fascinante.


Recriar a vida sentimental do navegador foi a parte mais desafiante do livro, dada a natural inexistência de documentos?

Não considero que essa tenha sido a parte mais desafiante, até porque é onde existe mais espaço para o romancista ficcionar. É óbvio que é necessário enquadrar os diálogos, os costumes e as tradições da época. Factualmente, Duarte Pacheco Pereira foi casado com a filha do secretário de D. Manuel I. Segundo a lenda, o navegador conheceu uma jovem indiana que se apaixonou perdidamente por ele. Com esta informação disponível torna-se mais simples balizar o enredo e adaptar à História, dando-lhe mais tensão e profundidade sem, no entanto, descurar a envolvência histórica.


Regressar à nossa História é uma possibilidade em aberto no futuro?

Sem dúvida. O romance histórico é um género literário que me agrada muito pelas duas vertentes: obriga a um estudo minucioso dos acontecimentos que me permite enriquecer o meu conhecimento e dar a conhecer aos leitores o resultado dessa investigação e, claro está, ter uma abordagem ficcionada que, embora dentro de determinados limites, oferece a possibilidade de colorir a História de uma forma romanceada


Que figura gostaria de biografar?

O meu próximo trabalho, sendo também um romance histórico, não se fixa numa figura tão mediática como terá sido Duarte Pacheco Pereira, mas sim num acontecimento histórico ocorrido em Portugal no início do século XX. No contexto regional em que se passou teve uma grande relevância, mas foi, infelizmente, esquecido pela História. Creio ter encontrado, de uma certa forma, o meu caminho na escrita, que passa certamente pelo avivar das histórias esquecidas dos nossos antepassados e que mereciam um lugar mais destacado no conhecimento do público. De momento, não posso ainda revelar qual o acontecimento histórico do próximo livro.


Uma das mais-valias do livro são as descrições marítimas e de navegação bastante pormenorizadas. Ser um apaixonado pelo mar foi uma vantagem durante a escrita do livro?

Ser um apaixonado pelo mar foi um importante contributo e uma obrigação ainda maior para conseguir o maior rigor possível na descrição. As obras literárias do Almirante Gago Coutinho, Prof. Contente Domingues e até os diários de bordo de Cristovão Colombo, entre outras, foram essenciais para recriar o ambiente, as rotas e as técnicas utilizadas a bordo das embarcações. Não deixa de ser gratificante escrever sobre um assunto que nos é muito querido e verificarmos um gosto acrescido por parte do nosso público na leitura dessas passagens.

Artigo original: http://comunidade.jn.pt/blogs/babel/archive/2016/07/08/quem-descobriu-afinal-o-brasil.aspx

Diário de Notícias 6/6/2016

dn

A Confissão do Navegador é a primeira experiência literária de Duarte Nuno Braga. A história da descoberta do Brasil por Duarte Pacheco Pereira.

É a primeira vez que Duarte Nuno Braga está numa Feira do Livro, mas também é a primeira vez que publica um romance. E logo com um tema que não é nada consensual, o da viagem marítima de Duarte Pacheco Pereira até ao Brasil, alegadamente realizada dois anos antes da de Pedro Álvares Cabral. Trata-se de um autor que vem da área das tecnologias, é licenciado em Engenharia Eletrotécnica, e que já está a escrever o segundo livro.

A Confissão do Navegador não relata apenas as peripécias de Pacheco Pereira até ao Brasil, mas toda a sua viagem até ao Oriente, designadamente o confronto militar em Calecute. Quando se pergunta ao autor se não foi uma aventura iniciar a carreira com um romance histórico que a História nega, Nuno Braga responde: “Os historiadores têm dificuldade em concretizar o que é oficial e não. Esta não é a versão que normalmente é dada nas escolas, mas cada vez vai sendo mais aceite e consensual de que “alguém” chegou ao Brasil antes de 1500.”

A partir do momento em que o tema Duarte Pacheco Pereira surgiu ao autor, este achou que era incontornável para um primeiro livro: “Queria escrever algo relacionado com os Descobrimentos porque estou ligado à náutica na minha vida pessoal. Quando vi que a História não tinha dado ao meu protagonista o real valor, ainda fiquei mais seduzido.” Além de que, explica, “as pessoas ficam curiosas quando refiro o navegador e querem saber se posso mesmo sustentar esta tese. O que não é difícil, visto que existem muitas provas documentais que tornam esta questão cada vez menos polémica.”

Entre os documentos, o destaque vai para o manuscrito Esmeraldo de situ orbis: “Uma prova cabal porque é o registo que Pacheco Pereira deixou, no qual dá indicação ao rei D. Manuel I de que fora descoberto o Brasil e com todas as informações geográficas do território, e que data de 1498.”

Se esse documento, que esteve escondido quase 400 anos, já é ele próprio quase um romance, o autor usou-o como “anzol” para o seu livro: “Toda a sua vida é uma aventura. Após o Brasil, segue-se a viagem a Cochim e a conquista que faz com 150 homens contra um exército de 50 mil do samorim de Calecute. Que mostra a sua bravura e inteligência em termos de estratégia militar.”

Para que o romance não fosse pouco mais do que a narrativa da viagem de Pacheco Pereira, Duarte Nuno Braga inclui a vida pessoal do navegador: “O livro não pretende ser um ensaio mas um romance histórico, onde se relata a relação com o rei, a mulher e D. Antónia de Albuquerque, com quem teve oito filhos.” Para dar mais picante, o autor introduz uma lenda, “a paixão vivida em Cochim com uma jovem local”.

Artigo original: http://www.dn.pt/artes/interior/primeiro-romance-e-a-corrigir-historia-dos-descobrimentos-5212341.html

RTP Madeira 20/05/2016

Ver video completo

New iN Town 30/05/2016

Duarte Pacheco Pereira: o navegador misterioso que descobriu o Brasil

duarte nuno braga luz del mar

É uma revelação controversa apresentada no livro “A Confissão do Navegador”, de Duarte Nuno Braga. A NiT entrevistou-o e tentou perceber porque é que andámos todos a aprender uma história errada.

Se na escola nos ensinaram que o descobridor do Brasil foi Pedro Álvares Cabral, o autor do livro “A Confissão do Navegador” (Editorial Presença, 15,90€) diz-nos que não é bem assim. “É que na frota de Álvares Cabral existia um tripulante chamado Duarte Pacheco Pereira”. No seu primeiro romance histórico, Duarte Nuno Braga conta-nos as aventuras daquele que considera ser o navegador português mais subvalorizado, Duarte Pacheco Pereira. No livro assistimos à aventura do navegador nas águas do Atlântico, depois de lhe ter sido confiada uma missão pelo rei D. João II.

Duarte Nuno Braga é natural de Lisboa e desde pequeno que gosta de escrever. Com 14 anos recebeu um prémio literário embora confesse que nunca imaginaria, na altura, vir a escrever um livro. A NiT entrevistou-o.

Afinal quem descobriu o Brasil?
Duarte Pacheco Pereira. Sabia que na frota de Cabral existia um tripulante chamado Duarte Pacheco?

Porquê o fascínio por Duarte Pacheco Pereira?
Era um homem de uma grande fé. Um navegador sem igual. Cosmógrafo. Pertenceu à guarda real de D. João II. Foi capitão-mor da Costa do Malabar. Foi governador de São Jorge da Mina. Segundo o mais importante biógrafo de Duarte Pacheco Pereira — o historiador Joaquim Barradas de Carvalho — o navegador português foi um génio comparável a Leonardo da Vinci. Com a antecipação de mais de dois séculos, Duarte Pacheco Pereira foi o responsável pelo cálculo do valor do grau de meridiano com uma margem de erro de apenas 4%. Recusou sempre receber quaisquer riquezas como mercê dos seus atos. Somente a glória do reino lhe interessava.

O que o levou a escrever sobre o descobrimento do Brasil?
Pareceu-me uma injustiça não ter sido dado crédito a um homem como Duarte Pacheco Pereira. Os seus feitos foram épicos. Estava na altura de alguém resgatar o seu incrível contributo para a glória e história do país.

Qual o seu episódio preferido da obra?
A conversa entre Duarte Pacheco Pereira e o seu filho Lisuarte, a bordo da nau que os traria de regresso a Lisboa, onde ambos se vêem confrontados com votos sagrados que juraram cumprir e que são completamente antagónicos. Infelizmente, só um pode cumprir o seu voto.

Camões descreveu Duarte Pacheco Pereira como “Aquiles lusitano”. Concorda com esta caracterização do navegador?
Foi a descrição mais justa que alguém lhe fez. Tomara que a história tivesse sido tão justa como foi o poeta.

Se tivesse de escolher entre embarcar numa viagem com Pedro Álvares Cabral ou Duarte Pacheco Pereira com quem preferia ir e porquê?
Desta vez iria com Cabral, porque já a fiz com Duarte Pacheco Pereira nestes últimos dois anos.

Ganhou um prémio literário com 14 anos. Pensou, nessa altura, que iria escrever um livro?
Honestamente, nunca imaginaria esse cenário naquela altura. Mas recordo-me de ter ficado muito orgulhoso com o prémio pois tive um prazer muito grande em escrever aquele manuscrito. Lamentavelmente, não dei a importância que deveria ter dado mas, se pensarmos bem, o que sabe um jovem com 14 anos acerca do seu futuro profissional?

Porque decidiu estudar Engenharia e seguir um caminho mais técnico e não tão artístico?
Costumo responder a essa pergunta, quase inevitável, de uma forma pragmática. Não tinha qualquer ligação às tecnologias durante a pré-adolescência. Por isso, respondo com a verdade singela. Achava uma vizinha muito gira e, sendo tímido, para ter oportunidade de ficar na mesma turma dela escolhi as mesma disciplinas opcionais, nomeadamente Electrotecnia. Ela mudou de escola e nunca mais a vi. Mas ganhei uma paixão pela electrónica. Até aos dias de hoje.

Onde fez a pesquisa e onde foi buscar a informação para escrever este “A Confissão do Navegador”?
Tudo começou com o regimento náutico “Esmeraldo de Situ Orbis”, escrito pelo próprio Duarte Pacheco Pereira. O navegador começou a sua escrita por volta de 1505 mas o documento só foi publicado 400 anos mais tarde. Consultei este e outros documentos de grande valor na Biblioteca Municipal de Cascais, que é excelente.

Quanto tempo demorou a redigir o livro?
Demorei cerca de um ano em pesquisas e estruturação e mais um ano na escrita e revisão.

Cristóvão Colombo e o misticismo à volta da sua nacionalidade. Em que ficamos?
Já li tantas versões diferentes que tenho algumas dúvidas mas não é taxativo que fosse genovês. Contudo, na perspectiva em que este romance é abordado, não encaixava um Colombo português.

Sabe se por acaso há uma relação de parentesco entre José Pacheco Pereira e Duarte Pacheco Pereira?
Curiosamente, já me foi referenciado por várias pessoas que são de facto parentes. Dado que não é possível confirmar com o Duarte, seria interessante questionar o José. (Risos)

Antena 2 25/05/2013

radio

Apresentação de “A Confissão do Navegador” no programa “A Ronda da Noite” de Luís Caetano, na Antena 2.

http://www.rtp.pt/play/p1299/e237252/a-ronda-da-noite

É a vida Alvim no Canal Q 17/05/2016

Screen Shot 2016-05-24 at 14.08.26Ver os videos:
https://www.youtube.com/watch?v=uqOuWPypwD4 (1ª parte)
https://www.youtube.com/watch?v=x-A_cUk5fMM (2ª parte)

Radioclube 19/05/2016

radioclube

Ouvir a entrevista

Revista Estante 17/05/2016

Screen Shot 2016-05-18 at 10.18.22

A confissão do navegador-thumbnail

A Confissão do Navegador, de Duarte Nuno Braga, é um romance histórico que relança a discussão em torno dos Descobrimentos.

Será mesmo verdade aquilo que temos como factual na História de Portugal? E se o Brasil não tiver realmente sido descoberto por Pedro Álvares Cabral? E se a Índia tiver sido governada por esse mesmo navegador, uma espécie de herói anónimo de Portugal? É o que é explorado neste romance histórico.

O livro

A Confissão do Navegador é uma obra de ficção que tem como base factos históricos e antigas lendas populares. O enredo tem início no ano de 1493, quando D. João II convida o capitão Duarte Pacheco Pereira a conhecer Cristóvão Colombo. A partir daí, narra-se a viagem deste navegador que o conduz a muitos perigos mas também à inesperada descoberta do Brasil e à conquista de Índia, contrariando os factos que hoje se conhecem.

O autor

Duarte Nuno Braga nasceu em 1975 e é natural de Lisboa. É licenciado em Engenharia Eletrotécnica, empreendedor de pequenas e grandes empresas, mas acabou por se dedicar às letras. Formador na área da escrita criativa, A Confissão do Navegador é o seu primeiro livro.

O gancho

Duarte Pacheco Pereira existiu realmente e chegou a ser descrito em Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões como “Aquiles Lusitano”. Embora se trate de ficção, A Confissão do Navegador desvenda a pouco conhecida figura deste navegador, mostrando que podem existir outras verdades nos factos que conhecemos da História de Portugal e do mundo.

Artigo original: http://www.revistaestante.fnac.pt/a-confissao-do-navegador/

Diário Digital 17/05/2016

Duarte Nuno Braga resgata o nome do verdadeiro descobridor do Brasil

Por Pedro Justino Alves

A confissão do navegador-thumbnail

De certo modo, em «A Confissão do Navegador», editado pela Presença, Duarte Nuno Braga resgata para debate popular a importância de Duarte Pacheco Pereira, segundo teorias seguras o verdadeiro navegador que descobriu o Brasil. O seu primeiro livro aborda a sua fascinante vida, um homem que, «com 150 portugueses, duas caravelas e meia dúzia de bateis, derrotou o exército de 50.000 do samorim graças a uma genial estratégia de combate».

Ganha um prémio literário aos 14 anos, mantém um blog sobre escrita e agora é editado o seu primeiro livro. Como surge a Engenharia Eletrotécnica?
Por amor (risos). Antes de receber esse prémio era apaixonado por uma vizinha. Ao saber que ela se ia inscrever na turma de eletrotécnica, informei os meus pais de que essa seria também a minha vontade. A verdade é que ela mudou de escola e o meu plano falhou. Felizmente, gostei muito daquela disciplina até aos dias de hoje. A pergunta que fica é: “Como poderemos com, 13 ou 14 anos, saber escolher uma profissão?” A vida é tão dinâmica. Nunca é tarde para mudarmos e seguirmos os nossos sonhos. Tento fazê-lo todos os dias.

Estas duas “áreas”, científica e literária, estão mais próximas do que muitos acreditam? Até que ponto o seu lado profissional é complementar à escrita?
Creio que estão muito próximas, sim. Os autores estão cada vez mais ligados às redes sociais; alguns dão mesmo formação a distância em escrita criativa através do e-learning; os livros são editados em versões digitais.
Eu, por exemplo, dou formação em edição de e-books e ajudo os meus alunos a divulgar as suas obras nas diversas redes sociais recorrendo a técnicas avançadas de social-media. A imagem do escritor, isolado do mundo e com a velha máquina de escrever, começa a desvanecer, ainda que lhe reconheça um certo glamour. Como diz Paulo Coelho, as redes sociais não vendem por si, mas, pelo menos, ajudam a divulgar as obras e os seus autores. É essencial que um escritor atual siga de mão dada com as novas tecnologias.

Escolhe como tema central do seu primeiro livro Os Descobrimentos. Algum motivo especial?
Na verdade, foram os Descobrimentos que me encontraram a mim. Sonhei por diversas vezes com algumas das cenas descritas no livro. Eram ideias que não me saiam da cabeça, como se alguém me chamasse a desvendar um mistério. Confesso que, quando decidi escrever um romance histórico, achei que seria um passo demasiado ousado para um primeiro livro.
Contudo, decidi arriscar, provavelmente não tanto, quanto os nossos heróis dos séculos XIV-XV.

E porque escrever sobre Duarte Pacheco Pereira?
Como disse, existia um mistério por desvendar, que queria ser tornado público. Debrucei-me sobre vários navegadores portugueses e encontrei diversos estudos que atribuíam a descoberta do Brasil a Duarte Pacheco Pereira. Comecei por ler a obra que o próprio encetou em 1505 — um regimento náutico dedicado a D. Manuel I, no qual regista a descoberta do Brasil em 1498. Mas que não haja dúvida: os feitos deste cosmógrafo-navegador não ficariam  por aí. Não mais tive dúvida de que tinha encontrado a minha história e que a minha missão seria contá-la.

Acredita que Duarte Pacheco Pereira é um nome “renegado” na História dos Descobrimentos?
Duarte Pacheco Pereira deveria ter, no mínimo, um lugar na história equiparado ao de Vasco da Gama. Não só terá descoberto efetivamente o Brasil, como era um homem da confiança de D. João II, assinou o Tratado de Tordesilhas, liderou a defesa de Cochim ao lado de centena e meia de portugueses contra exércitos de 50.000 homens. Os cronistas da época não poupavam elogios a Duarte Pacheco Pereira. Não foi por acaso que o poeta Camões o apelidou de “grão Pacheco, o Aquiles Lusitano” em “Os Lusíadas” .
O historiador Joaquim Barradas de Carvalho considera-o um génio comparável a Leonardo da Vinci, pois, com a antecipação de mais de dois séculos, calculou o valor do grau de meridiano com uma margem de erro de apenas 4%. Foi claramente uma das personalidades mais representativas do Renascimento Português.

Apresenta no livro que Pedro Álvares de Cabral foi uma escolha política em termos da Descoberta do Brasil. Qual é a sua opinião? Acredita piamente que foi Duarte Pacheco Pereira quem descobriu o Brasil?
Duarte Pacheco Pereira, tal como referi, escreveu, em 1505, o seu regimento náutico “Esmeraldo de Situ Orbis”, onde revela a descoberta do Brasil em 1498. Note-se que esta obra, a que todos podemos ter acesso, só viria a ser publicada 400 anos depois. Terá sido por acaso? Existem historiadores portugueses conceituados que defendem esta teoria. É o caso do Prof. Jorge Couto ou mesmo do Prof. Contente Domingues.
Há quem vá mais longe. Como se sabe, o Tratado de Tordesilhas, assinado por Pacheco, estendia em mais 270 léguas a oeste do meridiano de Cabo Verde o território a ser descoberto que seria atribuído aos portugueses, desde que a sul do paralelo de 27 graus. Esse aditamento à Bula Papal era essencial para englobar a nova terra. Foi também estabelecido um prazo que previa que qualquer nova descoberta seria atribuída a Castela. D. Isabel chegou a mandar caravelas para averiguar se os portugueses teriam descoberto secretamente algum território. Contudo, nada encontraram durante esse período de carência. Com todos estes constrangimentos, é muito razoável aceitar que Duarte Pacheco Pereira teria também estado no Brasil antes de 1494 e que as suas proezas jamais poderiam ser reveladas.
Existem ainda registos de que um dos tripulantes de Cabral se chamava Duarte Pacheco. Muitas ilações se poderiam tirar daqui…

Por diversas vezes aborda no livro a fé de Duarte Pacheco Pereira. Até que ponto a religião teve um papel central na sua vida?
Não há religião sem fé, mas creio que pode existir fé sem religião. E é essa a orientação em que me sinto confortável. A religião pressupõe determinadas doutrinas, a aceitação coletiva de determinadas regras. Respeito a liberdade religiosa de todos. Não há religião que não tenha coisas boas, assim como não há religião que não tenha coisas más. Só a tolerância pode aproximar os homens. Tenho fé de que o Universo nos dá infinitas oportunidades de encontrarmos o nosso caminho. Só temos de entender os sinais e enfrentar os medos. Não deixa de ser inspirador a fé que comandava os homens como Duarte Pacheco Pereira, que se aventuravam nos oceanos sem qualquer garantia da existência de terra. Na minha opinião, nos dias atuais, numa missão espacial, o desconhecido não tem comparação com odesconhecido dos nossos navegadores. Há quinhentos anos não tinham equipas de milhares de profissionais a acompanhar as missões ou tecnologia de segurança e comunicações como as que existem hoje.
Valia-lhes somente a fé.

Também salienta o seu patriotismo, como aconteceu, por exemplo, com a escassez de água na nau Espírito Santo, quando Duarte Pacheco Pereira colocou em causa a sua própria vida, desde que assegurasse o regresso da sua expedição. Este foi o outro pilar do seu caráter?
Como imagina, a viagem descrita é ficcionada, na medida em que não existem registos históricos, diários de bordo, etc., ou não fosse ela a causa de tanto mistério. Contudo, pelos estudos que fiz acerca desta personagem, nomeadamente em “Lendas da Índia”, do cronista Gaspar Correia, Duarte Pacheco Pereira foi sempre um homem pronto a morrer pela pátria. Nada era mais importante do que a glória do reino. O rajá de Cochim ofereceu-lhe tesouros muitos valiosos, em forma de agradecimento pela libertação da cidade. No entanto, o navegador português rejeitou tais presentes. Regressou sem nada a Portugal, deixando, inclusivamente, o seu filho Lisuarte, de apenas 20 anos, ao serviço do rajá.

As pedras lançadas ao mar por Afonso era um costume habitual na época?
Esse episódio foi totalmente ficcionado, mas essencial para demonstrar a importância que os homens davam à fé e à esperança de regressar às suas casas após longas estadas nos oceanos. Foi também uma forma de permitir a descoberta de um crime ocorrido a bordo.

Salienta também a sua integridade e retidão, como são os casos de Nassim, de Pascoal, do filho de Afonso. Quem foi, para si, o homem Duarte Pacheco Pereira?
Foi um notável navegador português, provido de uma fé que provavelmente não se encontra nos homens de hoje. Foi um líder nato, sempre pronto para defender a bandeira nacional. Estudava as estrelas como ninguém, foi o primeiro a usar a numeração árabe no seu regimento náutico, foi cavaleiro da guarda de D. João II, descobriu o Brasil, assinou Tordesilhas, construiu com as suas próprias mãos a fortaleza de Cochim. Com 150 portugueses, duas caravelas e meia dúzia de bateis, derrotou o exército de 50.000 do samorim graças a uma genial estratégia de combate. Derrotou corsários, foi governador de São Jorge da Mina. E, depois de tudo isto, poucos conhecem os seus feitos. Por essa razão, fiz questão de lhe dar voz neste romance histórico.

Não aborda o “fim” de Duarte Pacheco Pereira após a sua libertação. Porque esse desfecho, de certo modo, abrupto? 
Após o episódio do encarceramento, deixam de existir registos acerca dos seus últimos anos de vida. Damião de Góis escreveu nas suas crónicas que terá morrido na miséria. Estudos recentes levam a crer que essa crónica poderá ser imprecisa, uma vez que existe documentação que comprova que Duarte Pacheco Pereira tudo fez para que, após a sua morte, a família não passasse dificuldades económicas.
Do ponto de vista literário, também me agrada deixar algum espaço aos leitores de forma a que construam também eles a sua própria imagem de Duarte Pacheco Pereira.
No meu blogue duartenunbraga.com disponibilizei uma breve biografia com algumas curiosidades sobre a vida do herói esquecido. Também terei o maior gosto em discutir o assunto com os leitores através da minha página no Facebook.

Uma última questão: «- Até onde se estende a Literatura, Duarte?»
A literatura tem a incrível capacidade de se estender até ao infinito. E, para um homem de fé, o infinito tem um nome: Chama-se Deus.

Artigo original: http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=825633

Diário de Notícias 16/05/2016

confissao-dn