Palácio de Belém, 3 de Setembro às 17h00

No Sábado, dia 3 de Setembro, pelas 17h00 estarei no Palácio de Belém a autografar “A Confissão do Navegador”. Para quem ainda não tem o livro autografado ou não conhece ainda o palácio, terá aqui uma excelente oportunidade.

Programa completo: http://www.presenca.pt/…/festa-do-livro-no-palacio-de-belem/palaciobelem

Jornal de Notícias – 08/07/2016

Quem descobriu, afinal, o Brasil?

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Sérgio Almeida


E se o Brasil não tiver sido descoberto por Pedro Álvares Cabral, como nos transmitiram desde sempre os manuais escolares, mas sim por um navegador hoje quase incógnito chamadoDuarte Pacheco Pereira? Este é o ponto de partida do primeiro romance de histórico deDuarte Nuno Braga, um apaixonado pelo mar e pelos livros que não duvida de que a História está repleta de “inverdades oficiosas”.


Como surgiu o interesse pela vida de Duarte Pacheco Pereira e, por arrasto, a ideia de criar uma biografia romanceada?

A descoberta do Brasil esteve sempre envolvida em mistério e é um assunto que me despertou um interesse redobrado, até porque também vivi naquele país, que considero fascinante. Quando começamos a pesquisar sobre o tema, torna-se incontornável a abordagem de que os portugueses lá passaram antes da viagem de Cabral, em 1500. E se há um nome comum às diferentes teorias, é o de Duarte Pacheco Pereira. À medida que fui encontrando pormenores da sua vida tornou-se claro que muito poderia ser escrito sobre aquele herói nacional, ao qual a História, provavelmente por razões políticas, não terá dado o lugar de destaque merecido. A maioria dos cronistas da época quinhentista não pouparam nos elogios àquele navegador, mas a verdade é que acabou por cair no esquecimento.


A tese de que foi Duarte Pacheco Pereira a descobrir o Brasil é defendida por alguns historiadores, mas é claramente minoritária. Como se explica que, perante a existência de provas documentais nesse sentido, subsista a tese de que foi Pedro Álvares Cabral o autor do feito?

Eu tinha essa ideia preconcebida. No entanto, estou convencido de que existem muitos historiadores a defender a teoria. Veja-se o caso do Prof. Jorge Couto e Prof. Contente Domingues, conceituados historiadores portugueses, que escreveram sobre o assunto. É claro que nas escolas continua a atribuir-se a proeza a Pedro Álvares Cabral. Devo salientar, contudo, que não deixa de ser referida a possibilidade de que os portugueses poderão lá ter estado anteriormente. Apesar de tudo, tenho algumas dúvidas se o assunto é devidamente aprofundado. Note-se ainda que, segundo alguns historiadores, na História não existem teorias oficiais, nem verdades absolutas. O que existem são correntes de pensamento, umas mais conhecidas e aceites do que outras.


Mais do que um navegador ou descobridor, ele era acima de tudo um combatente?

Naquela época os recursos eram escassos e homens como Duarte Pacheco Pereiraeram muito polivalentes. Ele não era só um navegador ou descobridor. Era cosmógrafo, um estratega militar, um soldado, um gestor, um governador, um lutador e até empreiteiro. Repare que, por exemplo, na descoberta do Brasil terá sido capitão da armada, na Guiné foi governador, em Tordesilhas foi testemunha oficial, em Cochim lutou contra o samorim com a sua própria espada, construiu uma fortaleza com as suas próprias mãos, definiu a estratégia de combate, que venceu. Nos dias de hoje é quase impensável alguém ter capacidades tão distintas.


Terminou o livro a admirar mais o homem?

A minha admiração por Duarte Pacheco Pereira não parou de crescer desde que escrevi as primeiras linhas do manuscrito até ao dia em que se transformou em livro. De uma certa forma, sinto que herdei a missão de enaltecer o seu nome. Sempre que o seu nome é referido, quer pela imprensa, quer nas redes sociais com base neste romance histórico, encho-me de orgulho por ter contribuído para o seu enobrecimento.


Acredita que a História está repleta de muitas outras “inverdades oficiosas”?

Estou convicto disso mesmo. Repare que nos dias de hoje, nem sempre nos contam de forma transparente aquilo que se passa na atualidade. Ora quando o presente se transformar em História, existirão sempre “inverdades oficiosas”, como lhe chama. Seria presunçoso da nossa parte acreditar que não existem muitas histórias semelhantes à espera de serem clarificadas. Cabe aos historiadores, de uma forma científica, ou aos romancistas, de uma forma bem mais informal, descobri-las, estudá-las e publicá-las. A História é uma ciência dinâmica, em constante evolução e é também esse facto que a torna fascinante.


Recriar a vida sentimental do navegador foi a parte mais desafiante do livro, dada a natural inexistência de documentos?

Não considero que essa tenha sido a parte mais desafiante, até porque é onde existe mais espaço para o romancista ficcionar. É óbvio que é necessário enquadrar os diálogos, os costumes e as tradições da época. Factualmente, Duarte Pacheco Pereira foi casado com a filha do secretário de D. Manuel I. Segundo a lenda, o navegador conheceu uma jovem indiana que se apaixonou perdidamente por ele. Com esta informação disponível torna-se mais simples balizar o enredo e adaptar à História, dando-lhe mais tensão e profundidade sem, no entanto, descurar a envolvência histórica.


Regressar à nossa História é uma possibilidade em aberto no futuro?

Sem dúvida. O romance histórico é um género literário que me agrada muito pelas duas vertentes: obriga a um estudo minucioso dos acontecimentos que me permite enriquecer o meu conhecimento e dar a conhecer aos leitores o resultado dessa investigação e, claro está, ter uma abordagem ficcionada que, embora dentro de determinados limites, oferece a possibilidade de colorir a História de uma forma romanceada


Que figura gostaria de biografar?

O meu próximo trabalho, sendo também um romance histórico, não se fixa numa figura tão mediática como terá sido Duarte Pacheco Pereira, mas sim num acontecimento histórico ocorrido em Portugal no início do século XX. No contexto regional em que se passou teve uma grande relevância, mas foi, infelizmente, esquecido pela História. Creio ter encontrado, de uma certa forma, o meu caminho na escrita, que passa certamente pelo avivar das histórias esquecidas dos nossos antepassados e que mereciam um lugar mais destacado no conhecimento do público. De momento, não posso ainda revelar qual o acontecimento histórico do próximo livro.


Uma das mais-valias do livro são as descrições marítimas e de navegação bastante pormenorizadas. Ser um apaixonado pelo mar foi uma vantagem durante a escrita do livro?

Ser um apaixonado pelo mar foi um importante contributo e uma obrigação ainda maior para conseguir o maior rigor possível na descrição. As obras literárias do Almirante Gago Coutinho, Prof. Contente Domingues e até os diários de bordo de Cristovão Colombo, entre outras, foram essenciais para recriar o ambiente, as rotas e as técnicas utilizadas a bordo das embarcações. Não deixa de ser gratificante escrever sobre um assunto que nos é muito querido e verificarmos um gosto acrescido por parte do nosso público na leitura dessas passagens.

Artigo original: http://comunidade.jn.pt/blogs/babel/archive/2016/07/08/quem-descobriu-afinal-o-brasil.aspx

Um voto é um voto

batel e naus«Lisuarte subiu a bordo e entrou na minha câmara com um ar solene. Fiquei inquieto.

– Pai, tenho um pedido a fazer-lhe. Rogo-lhe, como mercê dos meus atos nas Índias, que o conceda.

– O que se passa, Lisuarte? Que pedido é esse?

– Permita-me, meu pai, que permaneça neste reino – disse, seguro. – Amanhã, não tenciono zarpar consigo para Lisboa.

Fiquei estupefacto.

– Que devaneio, filho! Que ideia é a tua? O teu lugar é no reino, quero que todos conheçam os teus feitos heroicos e te louvem pelas tuas ações. Ademais, receberás muitas mercês de D. Manuel e eu mesmo rogarei a Sua Alteza para que sejas armado cavaleiro.

– Fico deveras agradecido. Bem sei que o pai me quer bem e que se sentiria orgulhoso com essas retribuições do rei. Mas, como imagina, não foi pelas mercês que me aguardam que eu vim nesta empresa. Foi por si, e pela vontade de me tornar como o senhor. Agora, que alcancei essa aspiração, o meu sonho é continuar a lutar pelo que lutámos. Amo esta terra como amo Portugal, como amo o rei e o amo a si, meu pai.

– Meu filho, és ainda tão novo! Terás muitas oportunidades de regressar aqui mais tarde. Haverá ainda muitas armadas a zarpar de Lisboa que poderão trazer-te de volta às Índias.

– Assim como haverá muitas outras a zarpar das Índias e que me poderão levar de regresso a Lisboa, se assim o desejar. Estou decidido a ficar e, se não me conceder este desejo, que é merecido, não hesitarei em desertar – respondeu, firme.

– Se desertares, estarás a cometer um crime contra a tua pátria, contra o teu rei, contra o teu capitão-mor e, muito mais grave do que isso, contra o teu pai.

– Por isso lhe rogo que me conceda este desejo, evitando-se assim uma tragédia.

– Ousarias vir a enfrentar-me, Lisuarte? – perguntei com firmeza. – Talvez eu seja mais duro do que possas pensar!

– Cuidei que já estivesse a enfrentá-lo, pai.

Confesso que fiquei muito agastado com aquela ousadia do meu filho.

– Insano! Uma decisão dessas tem de ser bem ponderada, Lisuarte! Não podes tomá-la assim, de um dia para o outro.

– Não a tomei de um dia para o outro, pai. Na realidade, creio que a tomei no dia em que pela primeira vez pisei o cais de Cochim.

– Fiz votos de que te levaria de volta a Lisboa. É uma jura sagrada e tu bem sabes como eu defendo a minha palavra até às últimas consequências!

– Mas, assim como fez os seus votos, também eu fiz os meus. E os meus votos obrigam-me a ficar aqui.

– E como ousaste fazer votos que contradizem os meus, Lisuarte? Qual é a verdadeira razão de aqui quereres ficar, tão desterrado? Parece-me que ficaste deslumbrado com os lucros deste lugar e já esqueceste a tua própria terra. Muito desiludido me deixas.

– Como pode o pai pensar tal coisa? Ao contrário daquilo que diz, a riqueza da Índia não é a seda, ou a pimenta, nem outras fazendas. O valor desta terra é ela própria e o admirável povo que a habita. Homens e mulheres, velhos e crianças. As pessoas são o rosto de um reino. Já sentiu o aroma do Oriente? Em nenhum outro reino existe tal natureza. Deus plantou aqui o seu próprio jardim, que caiu pesadamente sobre o meu coração. Quero ficar e certificar-me de que a nossa entrega, os nossos esforço e dedicação não foram em vão.

»Receio que a cobiça da Corte Portuguesa se interesse somente pelos carregamentos que as naus transportam de volta ao reino. Se Portugal deseja, de facto, conquistar a Índia, deverá enviar os seus filhos, rogar-lhes que a povoem, que se misturem e partilhem os seus ensinamentos com o povo indiano. A Índia nunca será realmente nossa se quisermos governá-la à distância. D. Manuel nunca passará de um hóspede, ainda que tolerado, quando poderia ser, na verdade, um respeitado soberano.

»Eu fico, pai. E acredite que espalharei por este reino tudo o que o senhor me ensinou, assim como todos os valores que me passou. A glória dos Portugueses jamais será esquecida na Índia. As minhas mãos serão sempre o prolongamento das suas, assim como a minha fé será o espelho da sua fé. E o amor que tenho por si será espalhado por mim nesta terra. O meu trabalho será a continuação daquele que o pai começou.

»Eu decidi que jamais regressarei com vida a Portugal enquanto não vir com os meus próprios olhos esse sonho realizado. Se quer impedir-me de concretizar este meu voto, terá de usar a sua espada contra o seu próprio filho, porque amanhã só partirei para Lisboa se for registado como artigo de morte desta caravela.

– Não posso tolerar que me desafiem, nem mesmo a um filho, por muita razão que ele pense ter e por mais trágica que seja a minha reação.

O silêncio que se escutou de seguida carregou-nos os olhos de lágrimas. Nenhum pai, por mais rijo que seja, se prepara para tal momento.

– Dessa forma, obrigas-me a usar a minha espada, Lisuarte.

– Tenha misericórdia, meu pai.

Chorámos os dois profundamente pelo que iria passar-se. Confesso que não esperava ouvir um discurso tão eloquente e apaixonado de um filho e, afinal de contas, tão justo. Por um lado, queria deixá-lo ficar a viver o seu sonho, mas, por outro, queria também trazê-lo e gozar da felicidade que um pai pode sentir ao ver um rei ajoelhar-se perante o seu filho, dando-lhe merecimento de honras que poucos homens podem alcançar. Em tantos anos de mar e de guerra, jamais tinha visto um homem com a coragem de Lisuarte. O impossível que acabara de pedir-me era somente o corolário da sua personalidade. Mas teria eu o direito moral de o impedir? Não seria a minha felicidade egoísta indo contra a dele? Não podia travar o ímpeto a um jovem de 20 anos tão lúcido e inspirado que, tal como eu, pretendia conquistar o mundo por uma causa em que acreditava e pela qual lutara. O problema era que, à saída de Lisboa, eu fizera o voto sagrado de não o deixar para trás, e faltar à minha palavra era como trespassar com a espada o meu próprio corpo.

– Perdoa-me, não consigo conter as lágrimas. Sem eu dar por isso, tornaste-te um homem, superaste as maiores ambições que eu poderia desejar para um filho. Agora és tu que me colocas entre a espada e a parede, perante a decisão mais difícil que alguma vez tive de tomar. O meu coração regressará esmagado a Lisboa se não te levar a meu lado; todavia, baterá com um grande orgulho, que me iluminará a alma como o farol de um navio, pela coragem do voto sagrado que fizeste, contra a vontade do teu próprio pai. Compreendo que a tua escolha seja tão difícil quanto a minha. Um voto é um voto. Porém, é o teu contra o meu e assim quis Deus que só um pudesse ser cumprido. Se Ele agora não nos quer juntos nesta vida, tomara que mude de ideias na próxima.

Sem mais demora, desembainhei a minha espada guarnecida, ordenei a Lisuarte que se ajoelhasse, perante o bater do meu coração que se agigantava e as nossas lágrimas que caíam sem cessar.

– Sejamos corajosos e honremos a vontade de Deus. Fica quieto. Será mais fácil se não te mexeres.

Mas era eu quem tremia.»

in «A Confissão do Navegador» de Duarte Nuno Braga

Mehendi – Uma Arte Milenar

Mehndi-designs-for-weddings-2«Naubea, naquela noite, aparentava uma serenidade que eu nunca tinha visto. Não sei se seria mais um dos seus jogos de sedução, mas, se o era, resultava em pleno, pois pareceu-me ainda mais deslumbrante do que nos encontros anteriores.

Os seus pés descalços, que pareciam deslizar pelo chão com a leveza de uma pena, revelavam figuras artisticamente desenhadas, magníficas, floreados curvilíneos e espirais em tons dourados. As mãos e os dedos exibiam as mesmas formas artísticas, com pormenores minuciosamente traçados que se estendiam até aos braços. Olhei fixamente e com vagar para as suas mãos. Estavam divinais. Agradada com o interesse demonstrado, explicou-me:
– Chama-se mehendi. É uma arte milenar. As raparigas indianas fazem-no somente em ocasiões muito importantes.
– E não fica para sempre marcado no corpo?
– Não. Inquietas-te com tudo o que é permanente?
– Começas a conhecer-me melhor. E essa pasta, como se faz? É a primeira vez que deparo com a arte mehendi.
– Pó de henna, água e óleo de eucalipto. O resultado é encantador, não achas? – perguntou com um sorriso cândido.
– Admito que estou rendido. Certamente demorou uma eternidade a desenhar…
Naubea, sempre sensual, transmitia naquela ocasião uma tranquilidade quase perturbadora. Acendeu um incenso que, ao queimar, oferecia uma fragrância muito prazeirosa, típico aroma do Oriente. Depois, afastou os maus espíritos com gestos suaves, delicados. O que quer que Naubea estivesse a preparar, estava a fazê-lo com aprumo, e sem pressa.
– Demorou um dia inteiro. Foram as minhas primas que desenharam.
– Uma obra de arte sobreposta a outra obra de arte – comentei, sem resistir ao encanto.
Sorriu com o elogio e dirigiu-se para uma pequena mesa no canto da sala. Ali se encontrava uma salva de prata com frutos variados: plátanos, mangas, figos, romãs e maçãs.
– Na nossa tradição, as mulheres enfeitam o corpo com mehendi quando desejam agradar aos seus noivos. Por entre as figuras, como estas que vês, escondem as iniciais do nome do futuro marido e até mensagens secretas.
– Confesso que desconheço a língua hindu e o seu alfabeto. Pergunto-me o que terás tu escondido secretamente nessa arte do teu corpo.
– Nunca é tarde para aprenderes, Duarte. Tal como tu me ensinas a cultura do teu povo, eu posso ensinar-te a do meu.
Retirou da salva prateada uma maçã muito vermelha e brilhante e passou por mim a distância suficiente para que eu sentisse o seu perfume fresco. O meu olhar seguiu todos os seus movimentos lentos. Sem desviar a sua cabeça na direção da minha, sentou-se no chão numa almofada diante de mim tal como se sentaria uma sereia e, num gesto rápido e sem aviso, arremessou-me o fruto que acabara de trincar.
– Aceitas esse desafio, Duarte?
Agarrei a maçã com a mão direita num gesto firme, sem a deixar cair no chão. Soltou uma pequena gargalhada.
– Que desafio?
– Uma troca de deuses, culturas, artes e línguas.
– Línguas? Isto é um jogo, Naubea? – perguntei enquanto dava uma dentada na maçã.
– Talvez… Não imaginavas que uma mulher como eu desse tanto trabalho, pois não?
Com a ponta dos seus dedos, generosamente enfeitados pelo mehendi, procurava seduzir-me, fazendo-os deslizar vagarosamente ao longo da sua pele, desde a mão até ao braço.
– Creio que Adão teve o mesmo problema com Eva – respondi, sereno. Por uma vez, senti-me dono da situação, ali sentado ao seu lado, tentando disfarçar o meu interesse. Queria jogar aquele jogo de sedução e de troca de culturas. – Provavelmente não deveria ter trincado a tua maçã.
– Não te preocupes, que esta não é venenosa. Também as nossas maçãs têm origem num jardim secular que um antigo sultão de Deli mandou plantar. Porém, nesse jardim nunca existiu nenhuma serpente – tocou com a língua no meu ouvido e deixou-me arrepiado. – Além disso, já provei a maçã e achei-a deliciosa.
Podia não haver uma serpente nos jardins de Deli, mas seguramente existia uma em Cochim e estava a sibilar bem perto do meu ouvido. As nossas vozes baixaram de tom, transformando-se em sussurros. As batidas dos corações fizeram-se ouvir entre os jogos de palavras. Os olhares falavam mais do que os lábios e os gestos encheram-se de tensão.
– Deliciosa, sim, mas o veneno não se encontra na maçã, está em ti.
Sorri para disfarçar o nervosismo que começava a sentir. Nunca tive jeito para aqueles jogos.
– Além de venenosa, achas-me deliciosa, é isso? – testou-me ela, colocando os seus lábios a um dedo de distância dos meus.
Não me mexi.
– Estava a falar da maçã, que é deliciosa. Só me apetece morder mais – respondi prontamente.
– A maçã?
– Não, a ti.
– Duarte, cheguei a pensar que te ficasses só pela primeira dentada.
– A ti?
– Não, à maçã. – Riu-se e afastou-se de novo, continuando o jogo.
Há quem diga que Deus está em toda a parte, mas, se isso é verdade, não sei para onde Ele vai quando Naubea está presente, porque ela ocupa todo o espaço. Tudo em meu redor se incendeia e o mundo, tal como é conhecido, desaparece. Assim desapareceu naquela noite.
– Não sentes que o tempo descansa quando estamos juntos? – perguntou-me.
– O tempo, talvez. Mas o mesmo não posso dizer do meu coração, que parece querer saltar-me do peito, sem me dar tréguas ou descanso.
– E o que sabes tu sobre o que sofre um coração, Duarte?
– Sei o que um descobridor precisa de saber. Provavelmente, não menos do que tu, que és ainda muito jovem.
– Creio que estás equivocado. Nunca subestimes o coração de uma indiana. Não imaginas sequer o quanto uma mulher como eu é capaz de sofrer por amor.
– Para além da imensidão de tempo consumido na arte do mehendi?
– Muito para além disso. Dita a nossa tradição mais antiga que uma viúva se deve sacrificar numa fogueira em memória do marido falecido. Um só amor na vida, o primeiro e último…
– Não ias fazer isso…
– Não há nada que eu não faça por amor.
– Por Deus, nem eu sou teu marido, nem sequer és tu viúva – retorqui com um sorriso amarelo.
– É certo o que dizes – fez uma pausa. – Mas sabes uma coisa, descobridor? Antes de nos conhecermos, eu nunca tive o meu primeiro amor.
Mudei logo de feição. Quase senti o calor da fogueira da temível tradição indiana. Naubea soergueu-se e abandonou a sala, certificando-se de que eu desfrutava da sensualidade do movimento do seu corpo. Chegando à ombreira da porta, sem olhar para mim, proferiu num sussurro:
– Há ainda muito mehendi para ser descoberto.
E seguiu para os seus aposentos, sem confirmar se eu ia no seu encalço.
– Naubea! – Consegui que parasse por um instante. – Podemos trocar culturas, artes e línguas. Mas jamais trocarei de Deus.»

in «A Confissão do Navegador» de Duarte Nuno Braga​
Imagem: ladiesfashion.pk

New iN Town 30/05/2016

Duarte Pacheco Pereira: o navegador misterioso que descobriu o Brasil

duarte nuno braga luz del mar

É uma revelação controversa apresentada no livro “A Confissão do Navegador”, de Duarte Nuno Braga. A NiT entrevistou-o e tentou perceber porque é que andámos todos a aprender uma história errada.

Se na escola nos ensinaram que o descobridor do Brasil foi Pedro Álvares Cabral, o autor do livro “A Confissão do Navegador” (Editorial Presença, 15,90€) diz-nos que não é bem assim. “É que na frota de Álvares Cabral existia um tripulante chamado Duarte Pacheco Pereira”. No seu primeiro romance histórico, Duarte Nuno Braga conta-nos as aventuras daquele que considera ser o navegador português mais subvalorizado, Duarte Pacheco Pereira. No livro assistimos à aventura do navegador nas águas do Atlântico, depois de lhe ter sido confiada uma missão pelo rei D. João II.

Duarte Nuno Braga é natural de Lisboa e desde pequeno que gosta de escrever. Com 14 anos recebeu um prémio literário embora confesse que nunca imaginaria, na altura, vir a escrever um livro. A NiT entrevistou-o.

Afinal quem descobriu o Brasil?
Duarte Pacheco Pereira. Sabia que na frota de Cabral existia um tripulante chamado Duarte Pacheco?

Porquê o fascínio por Duarte Pacheco Pereira?
Era um homem de uma grande fé. Um navegador sem igual. Cosmógrafo. Pertenceu à guarda real de D. João II. Foi capitão-mor da Costa do Malabar. Foi governador de São Jorge da Mina. Segundo o mais importante biógrafo de Duarte Pacheco Pereira — o historiador Joaquim Barradas de Carvalho — o navegador português foi um génio comparável a Leonardo da Vinci. Com a antecipação de mais de dois séculos, Duarte Pacheco Pereira foi o responsável pelo cálculo do valor do grau de meridiano com uma margem de erro de apenas 4%. Recusou sempre receber quaisquer riquezas como mercê dos seus atos. Somente a glória do reino lhe interessava.

O que o levou a escrever sobre o descobrimento do Brasil?
Pareceu-me uma injustiça não ter sido dado crédito a um homem como Duarte Pacheco Pereira. Os seus feitos foram épicos. Estava na altura de alguém resgatar o seu incrível contributo para a glória e história do país.

Qual o seu episódio preferido da obra?
A conversa entre Duarte Pacheco Pereira e o seu filho Lisuarte, a bordo da nau que os traria de regresso a Lisboa, onde ambos se vêem confrontados com votos sagrados que juraram cumprir e que são completamente antagónicos. Infelizmente, só um pode cumprir o seu voto.

Camões descreveu Duarte Pacheco Pereira como “Aquiles lusitano”. Concorda com esta caracterização do navegador?
Foi a descrição mais justa que alguém lhe fez. Tomara que a história tivesse sido tão justa como foi o poeta.

Se tivesse de escolher entre embarcar numa viagem com Pedro Álvares Cabral ou Duarte Pacheco Pereira com quem preferia ir e porquê?
Desta vez iria com Cabral, porque já a fiz com Duarte Pacheco Pereira nestes últimos dois anos.

Ganhou um prémio literário com 14 anos. Pensou, nessa altura, que iria escrever um livro?
Honestamente, nunca imaginaria esse cenário naquela altura. Mas recordo-me de ter ficado muito orgulhoso com o prémio pois tive um prazer muito grande em escrever aquele manuscrito. Lamentavelmente, não dei a importância que deveria ter dado mas, se pensarmos bem, o que sabe um jovem com 14 anos acerca do seu futuro profissional?

Porque decidiu estudar Engenharia e seguir um caminho mais técnico e não tão artístico?
Costumo responder a essa pergunta, quase inevitável, de uma forma pragmática. Não tinha qualquer ligação às tecnologias durante a pré-adolescência. Por isso, respondo com a verdade singela. Achava uma vizinha muito gira e, sendo tímido, para ter oportunidade de ficar na mesma turma dela escolhi as mesma disciplinas opcionais, nomeadamente Electrotecnia. Ela mudou de escola e nunca mais a vi. Mas ganhei uma paixão pela electrónica. Até aos dias de hoje.

Onde fez a pesquisa e onde foi buscar a informação para escrever este “A Confissão do Navegador”?
Tudo começou com o regimento náutico “Esmeraldo de Situ Orbis”, escrito pelo próprio Duarte Pacheco Pereira. O navegador começou a sua escrita por volta de 1505 mas o documento só foi publicado 400 anos mais tarde. Consultei este e outros documentos de grande valor na Biblioteca Municipal de Cascais, que é excelente.

Quanto tempo demorou a redigir o livro?
Demorei cerca de um ano em pesquisas e estruturação e mais um ano na escrita e revisão.

Cristóvão Colombo e o misticismo à volta da sua nacionalidade. Em que ficamos?
Já li tantas versões diferentes que tenho algumas dúvidas mas não é taxativo que fosse genovês. Contudo, na perspectiva em que este romance é abordado, não encaixava um Colombo português.

Sabe se por acaso há uma relação de parentesco entre José Pacheco Pereira e Duarte Pacheco Pereira?
Curiosamente, já me foi referenciado por várias pessoas que são de facto parentes. Dado que não é possível confirmar com o Duarte, seria interessante questionar o José. (Risos)

Avisa os teus amigos de que estamos quase a chegar

duarte nuno braga luz del mar

«Avisa os teus amigos de que estamos quase a chegar! Preparem uma grande festa! Diz-lhes que vimos de Portugal, que somos um povo nobre, de coragem, filhos de Deus. Diz-lhes que estamos cansados, com fome e com sede. Queremos boa carne, bom peixe, água fresca, terras férteis e riqueza para o nosso amado rei D. João e para a nossa honrada pátria. Ouro, prata e outros metais preciosos. Especiarias raras, aves exóticas, cheiros e sabores. E eles que passem a palavra pelos mares, pelos rios. De terra em terra, pelas florestas e pelas aldeias e cidades, pelas gentes que as povoam, de filhos para pais e de pais para avós. De servos para chefes e de chefes para mestres. Mostra-lhes como somos magnânimos. Que vamos abraçar todas essas terras e havemos de voltar mais tarde com mais portugueses como nós, que as hão de povoar e fazer prosperar. Assim é a vontade de Deus Nosso Senhor.»

in «A Confissão do Navegador» de Duarte Nuno Braga

Lançamento do livro “A Confissão do Navegador”

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Lançamento do livro “A Confissão do Navegador” com apresentação de Sara Rodi, domingo, 29 de Maio, às 18h30 na FNAC Chiado.
Podem confirmar a presença no facebook.

Diário de Notícias 16/05/2016

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Cada um no seu tempo

13177725_1023823294372109_744922553904982643_nCada um no seu tempo. Cada um no seu espaço. Nada me deixa mais angustiado do que uma noite sem ti. Passo! Sem o aconchego do teu abraço. Do cheiro do teu corpo. Do teu silêncio. Do teu rosto. De um conforto. Do teu riso que antecede a gargalhada. Da tua respiração descontrolada. Do teu sono enrolado no meu. E, quando os olhos se fecham, já não é o cansaço que desliga a luz das estrelas. São as almas que renascem, sorriem e brincam. Divertem-se como pequenas crianças, que não sentem o tempo passar. Combinam o dia seguinte, os dias seguintes. Falam de toda uma vida. Das nossas vidas. Destas. E das próximas. Segredam-nos aos ouvidos, contam-nos histórias de amor. Aguardam que a noite adormeça e a magia mais bela aconteça: ver-te acordar outra vez.

Excelência Portugal 10/5/2016

capa_confissao_NavagadorDuarte Nuno Braga nasceu em 1975 e é natural de Lisboa. O prémio literário que recebeu aos 14 anos incentivou-o a continuar a escrever. Licenciado em Engenharia Eletrotécnica, fez carreira na área das tecnologias. É autor do blogue duartenunobraga.com, onde se entrega à escrita, ao contacto com outros autores e sobretudo à partilha com os leitores. Dedica-se à formação em escrita criativa. A Confissão do Navegador é o seu primeiro romance histórico.

De que forma chegas a esta personagem histórica, Duarte Pacheco Pereira, e a incluis no teu livro?

Comecei por descobrir “A Confissão do Navegador” através da meditação. Alguns episódios narrados apareciam-me, muitas vezes, em sonhos, como se estivesse a ser chamado para desvendar segredos antigos. Comecei a investigar a vida de diversos navegadores quinhentistas até que conheci a história escondida de Duarte Pacheco Pereira. E, nesse preciso momento, não tive mais dúvidas de que era ele o capitão desta história incrível.

Duarte Pacheco Pereira poderá ser mais um herói ignorado na nossa história?

Não tenho quaisquer dúvidas disso. Duarte Pacheco Pereira terá estado duas vezes no Brasil, antes de 1500. A sua fé, aliada aos seus conhecimentos de cosmografia, foram determinantes. Portugal precisava de conseguir um caminho marítimo para a Índia, tão seguro quanto possível. As aguadas em África eram muito inseguras, devido à hostilidade dos nativos e D. João II necessitava de alternativas. É muito provável que a descoberta do Brasil tenha ocorrido em 1493. No ano seguinte, o próprio Duarte Pacheco Pereira assinava o Tratado de Tordesilhas, que estendia a linha divisória da bula papal em 270 léguas a oeste de Cabo Verde, incluindo assim aquele novo território. No mesmo tratado ficaria salvaguardado um período de carência que concederia a Castela quaisquer terras descobertas. Revelar o descobrimento do Brasil naquela altura seria algo impensável. No seu tempo, Duarte Pacheco Pereira foi um grande visionário e os seus feitos foram notáveis, mas a nossa história não lhe deu o lugar de destaque merecido.

Escrever um romance histórico implica um trabalho e um estudo extenso. O que fizeste para dar corpo ao teu romance?

Este romance demorou cerca de dois anos a completar. Foram muitas horas de biblioteca, a consultar compêndios antigos e o próprio regimento escrito por Duarte Pacheco Pereira. Tive o máximo de cuidado possível nos pormenores. Se num determinado episódio descrevi uma tempestade, é porque existem registos, nesse dia, dessa intempérie. Toda a parte ficcionada foi feita de uma forma não contraditória com os registos históricos existentes. Isto é, o rei pode não ter dado um anel a Duarte Pacheco Pereira, como é descrito no primeiro capítulo. Mas não existe um documento a dizer que não deu. Os factos históricos, por outro lado, são narrados com o maior rigor possível.

Também tive alguma sorte. No desenrolar do romance, o herói tem um amor proibido com Antónia, com quem viria a casar mais tarde. Faltava-me saber se, efectivamente, poderia ser um amor proibido. Fiquei incrédulo ao descobrir que existem indícios de que a família de Antónia terá estado exilada em Castela, por conspiração contra o rei. A nossa história é tão rica que a escrita de um romance acaba por se simplificar. (risos!)

Ganhaste um prémio quando eras mais novo. Ficar tantos anos desligado da escrita fez-te duvidar das tuas capacidades?

Não posso dizer que alguma vez tenha duvidado das minhas capacidades enquanto autor. Desde muito novo que gostava de escrever. Lembro-me de inventar notícias em pequenos bilhetes e lê-los para a família. Durante a adolescência, concorri com um conto a um prémio literário e fiquei em primeiro lugar. Recordo-me de que investi todo o prémio num rádio-transmissor. Gostei tanto daquilo que ganhei um entusiasmo pelas telecomunicações, até hoje.

A verdade é que o universo tem a incrível capacidade de nos devolver oportunidades atrás de oportunidades. E, desta vez, agarrei-a! Creio que o meu problema foi gostar sempre de fazer muitas coisas diferentes. (risos!)

De que forma a tua busca interior – fizeste cursos de meditação, aprendeste astrologia, música, palavras e poesia, viste artes ancestrais, fizeste massagem Thai – te ajudou na tua vida?

Sempre gostei da mudança e de me questionar. A minha busca interior não termina aqui. Creio que acabou de começar. Na minha perspectiva pessoal, este livro é muito mais do que uma obra sobre os descobrimentos. É um guia de auto conhecimento. Creio que muitos leitores encontrarão nele também algumas respostas. Costumo dizer que a coragem e impulsividade, quando coabitam, podem ser explosivas. A minha busca interior ajuda-me a apaziguar essa efervescência. Por outro lado, a vida é para ser vivida, certo? Só temos de encontrar um equilíbrio.

Estavas à espera de tantas solicitações após a publicação de «Duarte Pacheco Pereira – O Navegador que descobriu o Brasil»?

Confesso que não tinha consciencializado quaisquer perspectivas nesse sentido. Nem altas, nem baixas. Vivi com muito amor e dedicação todos os diferentes momentos deste livro. A pesquisa, a escrita, a revisão, a publicação e agora a divulgação. Costumo dizer que a felicidade não se encontra no horizonte, ela mora no caminho da vida. E só poderemos realmente vivenciá-la se colocarmos as expectativas de lado.

Contudo, e sem falsa modéstia, não escondo a minha satisfação por ver as atenções postas em torno desta obra, quer por parte da comunicação social, quer por parte dos leitores.

Queres falar-nos de influências? Que escritores e livros te marcam?

A maior influência é a minha própria vida e a forma como encaro as situações com que deparo. Não há escritor que não tenha um pouco de si nos seus livros. No plano da escrita espiritual, tenho de referir Paulo Coelho, que considero um mestre. No contexto do enredo e das descrições, O Equador de Miguel Sousa Tavares é um néctar. E, se isso fosse possível, gostava de tirar o curso da linguagem própria de Mia Couto.

O que queres dizer ao teu público-leitor e a quem ainda não te descobriu?

«A Confissão do Navegador» é um empolgante romance histórico que nos leva a vivenciar as emoções das viagens marítimas dos descobrimentos e da conquista das Índias. Numa época envolta em segredos, conspirações e amores proibidos, o capitão português, pejado de fé e perseverança, enfrentou a fúria dos oceanos, combateu exércitos poderosos e realizou descobertas de importância vital para o país. Porém, na rota das suas viagens, Duarte Pacheco Pereira descobriu muito mais do que poderia sequer imaginar.

Além de sugerir a leitura do meu livro, gostava de incentivar os leitores a darem uma oportunidade aos novos autores portugueses. Felizmente, existem cada vez mais pessoas a escrever – e bem!

Aproveitem as redes sociais para conhecer os autores, que estão ávidos de receber os vossos comentários e partilharem experiências. Procurem Afonso Reis Cabral, Manuel Monteiro, Célia Loureiro, Sara Rodi, Nuno Nepomuceno.

Leiam autores portugueses, ajudem a cultura portuguesa!

Artigo Original:
http://excelenciapt.com/site/?p=6253

Autor: Rodrigo Ferrão    Data: 10-05-2016
Publicado em: Cultura, Entrevistas