Diário Digital 17/05/2016

Duarte Nuno Braga resgata o nome do verdadeiro descobridor do Brasil

Por Pedro Justino Alves

A confissão do navegador-thumbnail

De certo modo, em «A Confissão do Navegador», editado pela Presença, Duarte Nuno Braga resgata para debate popular a importância de Duarte Pacheco Pereira, segundo teorias seguras o verdadeiro navegador que descobriu o Brasil. O seu primeiro livro aborda a sua fascinante vida, um homem que, «com 150 portugueses, duas caravelas e meia dúzia de bateis, derrotou o exército de 50.000 do samorim graças a uma genial estratégia de combate».

Ganha um prémio literário aos 14 anos, mantém um blog sobre escrita e agora é editado o seu primeiro livro. Como surge a Engenharia Eletrotécnica?
Por amor (risos). Antes de receber esse prémio era apaixonado por uma vizinha. Ao saber que ela se ia inscrever na turma de eletrotécnica, informei os meus pais de que essa seria também a minha vontade. A verdade é que ela mudou de escola e o meu plano falhou. Felizmente, gostei muito daquela disciplina até aos dias de hoje. A pergunta que fica é: “Como poderemos com, 13 ou 14 anos, saber escolher uma profissão?” A vida é tão dinâmica. Nunca é tarde para mudarmos e seguirmos os nossos sonhos. Tento fazê-lo todos os dias.

Estas duas “áreas”, científica e literária, estão mais próximas do que muitos acreditam? Até que ponto o seu lado profissional é complementar à escrita?
Creio que estão muito próximas, sim. Os autores estão cada vez mais ligados às redes sociais; alguns dão mesmo formação a distância em escrita criativa através do e-learning; os livros são editados em versões digitais.
Eu, por exemplo, dou formação em edição de e-books e ajudo os meus alunos a divulgar as suas obras nas diversas redes sociais recorrendo a técnicas avançadas de social-media. A imagem do escritor, isolado do mundo e com a velha máquina de escrever, começa a desvanecer, ainda que lhe reconheça um certo glamour. Como diz Paulo Coelho, as redes sociais não vendem por si, mas, pelo menos, ajudam a divulgar as obras e os seus autores. É essencial que um escritor atual siga de mão dada com as novas tecnologias.

Escolhe como tema central do seu primeiro livro Os Descobrimentos. Algum motivo especial?
Na verdade, foram os Descobrimentos que me encontraram a mim. Sonhei por diversas vezes com algumas das cenas descritas no livro. Eram ideias que não me saiam da cabeça, como se alguém me chamasse a desvendar um mistério. Confesso que, quando decidi escrever um romance histórico, achei que seria um passo demasiado ousado para um primeiro livro.
Contudo, decidi arriscar, provavelmente não tanto, quanto os nossos heróis dos séculos XIV-XV.

E porque escrever sobre Duarte Pacheco Pereira?
Como disse, existia um mistério por desvendar, que queria ser tornado público. Debrucei-me sobre vários navegadores portugueses e encontrei diversos estudos que atribuíam a descoberta do Brasil a Duarte Pacheco Pereira. Comecei por ler a obra que o próprio encetou em 1505 — um regimento náutico dedicado a D. Manuel I, no qual regista a descoberta do Brasil em 1498. Mas que não haja dúvida: os feitos deste cosmógrafo-navegador não ficariam  por aí. Não mais tive dúvida de que tinha encontrado a minha história e que a minha missão seria contá-la.

Acredita que Duarte Pacheco Pereira é um nome “renegado” na História dos Descobrimentos?
Duarte Pacheco Pereira deveria ter, no mínimo, um lugar na história equiparado ao de Vasco da Gama. Não só terá descoberto efetivamente o Brasil, como era um homem da confiança de D. João II, assinou o Tratado de Tordesilhas, liderou a defesa de Cochim ao lado de centena e meia de portugueses contra exércitos de 50.000 homens. Os cronistas da época não poupavam elogios a Duarte Pacheco Pereira. Não foi por acaso que o poeta Camões o apelidou de “grão Pacheco, o Aquiles Lusitano” em “Os Lusíadas” .
O historiador Joaquim Barradas de Carvalho considera-o um génio comparável a Leonardo da Vinci, pois, com a antecipação de mais de dois séculos, calculou o valor do grau de meridiano com uma margem de erro de apenas 4%. Foi claramente uma das personalidades mais representativas do Renascimento Português.

Apresenta no livro que Pedro Álvares de Cabral foi uma escolha política em termos da Descoberta do Brasil. Qual é a sua opinião? Acredita piamente que foi Duarte Pacheco Pereira quem descobriu o Brasil?
Duarte Pacheco Pereira, tal como referi, escreveu, em 1505, o seu regimento náutico “Esmeraldo de Situ Orbis”, onde revela a descoberta do Brasil em 1498. Note-se que esta obra, a que todos podemos ter acesso, só viria a ser publicada 400 anos depois. Terá sido por acaso? Existem historiadores portugueses conceituados que defendem esta teoria. É o caso do Prof. Jorge Couto ou mesmo do Prof. Contente Domingues.
Há quem vá mais longe. Como se sabe, o Tratado de Tordesilhas, assinado por Pacheco, estendia em mais 270 léguas a oeste do meridiano de Cabo Verde o território a ser descoberto que seria atribuído aos portugueses, desde que a sul do paralelo de 27 graus. Esse aditamento à Bula Papal era essencial para englobar a nova terra. Foi também estabelecido um prazo que previa que qualquer nova descoberta seria atribuída a Castela. D. Isabel chegou a mandar caravelas para averiguar se os portugueses teriam descoberto secretamente algum território. Contudo, nada encontraram durante esse período de carência. Com todos estes constrangimentos, é muito razoável aceitar que Duarte Pacheco Pereira teria também estado no Brasil antes de 1494 e que as suas proezas jamais poderiam ser reveladas.
Existem ainda registos de que um dos tripulantes de Cabral se chamava Duarte Pacheco. Muitas ilações se poderiam tirar daqui…

Por diversas vezes aborda no livro a fé de Duarte Pacheco Pereira. Até que ponto a religião teve um papel central na sua vida?
Não há religião sem fé, mas creio que pode existir fé sem religião. E é essa a orientação em que me sinto confortável. A religião pressupõe determinadas doutrinas, a aceitação coletiva de determinadas regras. Respeito a liberdade religiosa de todos. Não há religião que não tenha coisas boas, assim como não há religião que não tenha coisas más. Só a tolerância pode aproximar os homens. Tenho fé de que o Universo nos dá infinitas oportunidades de encontrarmos o nosso caminho. Só temos de entender os sinais e enfrentar os medos. Não deixa de ser inspirador a fé que comandava os homens como Duarte Pacheco Pereira, que se aventuravam nos oceanos sem qualquer garantia da existência de terra. Na minha opinião, nos dias atuais, numa missão espacial, o desconhecido não tem comparação com odesconhecido dos nossos navegadores. Há quinhentos anos não tinham equipas de milhares de profissionais a acompanhar as missões ou tecnologia de segurança e comunicações como as que existem hoje.
Valia-lhes somente a fé.

Também salienta o seu patriotismo, como aconteceu, por exemplo, com a escassez de água na nau Espírito Santo, quando Duarte Pacheco Pereira colocou em causa a sua própria vida, desde que assegurasse o regresso da sua expedição. Este foi o outro pilar do seu caráter?
Como imagina, a viagem descrita é ficcionada, na medida em que não existem registos históricos, diários de bordo, etc., ou não fosse ela a causa de tanto mistério. Contudo, pelos estudos que fiz acerca desta personagem, nomeadamente em “Lendas da Índia”, do cronista Gaspar Correia, Duarte Pacheco Pereira foi sempre um homem pronto a morrer pela pátria. Nada era mais importante do que a glória do reino. O rajá de Cochim ofereceu-lhe tesouros muitos valiosos, em forma de agradecimento pela libertação da cidade. No entanto, o navegador português rejeitou tais presentes. Regressou sem nada a Portugal, deixando, inclusivamente, o seu filho Lisuarte, de apenas 20 anos, ao serviço do rajá.

As pedras lançadas ao mar por Afonso era um costume habitual na época?
Esse episódio foi totalmente ficcionado, mas essencial para demonstrar a importância que os homens davam à fé e à esperança de regressar às suas casas após longas estadas nos oceanos. Foi também uma forma de permitir a descoberta de um crime ocorrido a bordo.

Salienta também a sua integridade e retidão, como são os casos de Nassim, de Pascoal, do filho de Afonso. Quem foi, para si, o homem Duarte Pacheco Pereira?
Foi um notável navegador português, provido de uma fé que provavelmente não se encontra nos homens de hoje. Foi um líder nato, sempre pronto para defender a bandeira nacional. Estudava as estrelas como ninguém, foi o primeiro a usar a numeração árabe no seu regimento náutico, foi cavaleiro da guarda de D. João II, descobriu o Brasil, assinou Tordesilhas, construiu com as suas próprias mãos a fortaleza de Cochim. Com 150 portugueses, duas caravelas e meia dúzia de bateis, derrotou o exército de 50.000 do samorim graças a uma genial estratégia de combate. Derrotou corsários, foi governador de São Jorge da Mina. E, depois de tudo isto, poucos conhecem os seus feitos. Por essa razão, fiz questão de lhe dar voz neste romance histórico.

Não aborda o “fim” de Duarte Pacheco Pereira após a sua libertação. Porque esse desfecho, de certo modo, abrupto? 
Após o episódio do encarceramento, deixam de existir registos acerca dos seus últimos anos de vida. Damião de Góis escreveu nas suas crónicas que terá morrido na miséria. Estudos recentes levam a crer que essa crónica poderá ser imprecisa, uma vez que existe documentação que comprova que Duarte Pacheco Pereira tudo fez para que, após a sua morte, a família não passasse dificuldades económicas.
Do ponto de vista literário, também me agrada deixar algum espaço aos leitores de forma a que construam também eles a sua própria imagem de Duarte Pacheco Pereira.
No meu blogue duartenunbraga.com disponibilizei uma breve biografia com algumas curiosidades sobre a vida do herói esquecido. Também terei o maior gosto em discutir o assunto com os leitores através da minha página no Facebook.

Uma última questão: «- Até onde se estende a Literatura, Duarte?»
A literatura tem a incrível capacidade de se estender até ao infinito. E, para um homem de fé, o infinito tem um nome: Chama-se Deus.

Artigo original: http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=825633