Duarte Pacheco Pereira – o herói esquecido

Duarte Pacheco Pereira – o herói esquecido
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Duarte Pacheco Pereira terá nascido em Lisboa, no ano de 1460. Era filho bastardo de João Pacheco e de Isabel Pereira, e tetraneto de D. Diogo Lopes Pacheco, um dos executores de Inês de Castro.

Estudos de historiadores da Universidade de Michigan revelam que Duarte Pacheco Pereira terá descoberto o Brasil em 1493. Sendo D. João II conhecido pela sua obsessão de ocultar informação politicamente sensível, sugere-se que somente vários anos após a assinatura do Tratado de Tordesilhas, a descoberta do Brasil terá sido oficialmente anunciada, atribuindo-se a proeza a Pedro Álvares Cabral. O tratado, assinado a 7 de Junho de 1494, contemplava que, se até ao dia 20 desse mês, fossem descobertas novas terras pelos navios castelhanos a mais de 250 léguas a oeste do meridiano de Cabo Verde, estas pertenceriam a Castela. Só depois desse período inicial, ficaria válida a regra das 370 léguas, de forma a incluir o território do Brasil – daí a necessidade de ocultar a sua existência.

Documentos relativos à viagem de Cabral referem um tripulante chamado Duarte Pacheco mas, provavelmente pelos mesmos motivos anteriores, ter-se-á decido encobrir a sua participação na viagem de 1500, uma vez que o próprio Duarte Pacheco Pereira foi uma das testemunhas que assinaram o Tratado de Tordesilhas. É de admitir, portanto, que o navegador-cosmógrafo terá acompanhado Cabral, uma vez que seria o único português com experiência comprovada naquela rota.

Segundo o mais importante biógrafo de Duarte Pacheco Pereira – o historiador Joaquim Barradas de Carvalho – o navegador português foi um génio comparável a Leonardo da Vinci. Com a antecipação de mais de dois séculos, Duarte Pacheco Pereira foi o responsável pelo cálculo do valor do grau de meridiano com uma margem de erro de apenas 4%. Foi ainda dos primeiros a utilizar a numeração árabe, que é usada actualmente, ao invés da numeração romana, corrente na época. O historiador opina que Duarte Pacheco Pereira foi das personalidades mais representativas do Renascimento Português: reflecte o universo da Idade Média, mas ao mesmo tempo projecta-se na modernidade.

A nau Espírito Santo, que capitaneou, foi efectivamente usada na sua viagem de Lisboa para Cochim. Contudo, no início de 1504, a mesma nau, dessa vez capitaneada por Pero d’ Ataíde, naufragou ao largo de Moçambique, quando regressava de Cochim, depois de se perder da armada que partira da Índia, em Janeiro desse ano.

Naubea, não sendo referenciada pelos historiadores, é protagonista de uma lenda portuguesa, sendo descrita por Gentil Marques em Lendas de Portugal como uma grande admiradora do navegador português, a quem rogou uma maldição que, pelo facto de Duarte Pacheco Pereira a ter rejeitado, o sujeitaria a uma vida de miséria, e se estenderia pelos seus descendentes das três gerações seguintes.

Após o regresso da Índia, em 1505, Duarte Pacheco Pereira encetou a escrita do livro Esmeraldo de Situ Orbis, no qual refere uma viagem secreta ao Brasil, a mando de D. Manuel I, realizada no ano de 1498. A obra, que só viria a ser publicada em 1892, nunca chegou a ser terminada.

Em 1508, D. Manuel I encarregou o navegador de capturar o corsário francês Mondragón, que actuava entre os Açores e a costa portuguesa, onde atacava as naus vindas da Índia. No ano seguinte, Duarte Pacheco Pereira capturou-o ao largo do cabo Finisterra.

Em 1512, casou com Antónia de Albuquerque, filha de Jorge Garcês, nomeado secretário de D. Manuel I, e neta de Duarte Galvão, que fora embaixador de D. João II, antes de se exilar em Castela.

Do seu casamento com Antónia, nasceram seis filhos e duas filhas. Recebeu de D. Manuel I um dote de 120.000 reais, que lhe foi pago em várias prestações, até ao ano de 1515.

Desconhece-se a verdadeira origem de Lisuarte, filho ilegítimo de Duarte Pacheco Pereira. O jovem terá morrido na Índia, em 1509, numa batalha contra os mouros.

Em 1519, D. Manuel I nomeou Duarte Pacheco Pereira Governador de São Jorge da Mina, na Guiné. Três anos depois, e a mando de D. João III, regressaria a Lisboa, acorrentado a ferros.

Os motivos para o seu encarceramento não são conhecidos com exactidão. O rei terá sido convencido, por conspiradores e invejosos, de que Duarte Pacheco Pereira teria contrabandeado ouro, enquanto Governador de São Jorge da Mina. Contrastando com essa teoria, e segundo a documentação, foi curiosamente durante a sua governação que se exportou a maior quantidade de ouro daquela região para o reino. O navegador viria a provar a sua inocência no ano seguinte, tendo depois sido libertado e auferido uma tensa compensatória de 50.000 reais por parte do rei.

Já sexagenário, e insatisfeito com as atitudes de D. João III, Duarte Pacheco Pereira terá chegado a manifestar desejo de servir o imperador Carlos V, algo que, contudo, nunca se concretizou.

Com ou sem a maldição de Naubea, a verdade é que em 1533, segundo relata o cronista Damião de Góis, o navegador português viria a morrer na miséria, deixando a sua família à beira da pobreza.

Estudos recentes de Andreia Martins de Carvalho e Pedro Pinto levam, no entanto, a crer que essa crónica poderá ser imprecisa, uma vez que existe documentação entretanto divulgada, que comprova que Duarte Pacheco Pereira tudo fez, para que após a sua morte, a família não passasse dificuldades económicas. Antónia de Albuquerque terá herdado uma tensa do falecido marido e era ainda rendeira de propriedades. Antónia viria a falecer no ano de 1565.

Sete anos depois, publicava-se pela primeira vez Os Lusíadas em que o poeta Luís Vaz de Camões perpetuava o nome de Duarte Pacheco Pereira, chamando-lhe grão Pacheco, Aquiles Lusitano:

 

«E canta como lá se embarcaria

Em Belém o remédio deste dano,

Sem saber o que em si ao mar traria,

O grão Pacheco, Aquiles Lusitano.

O peso sentirão, quando entraria,

O curvo lenho e o férvido Oceano,

Quando mais n’água os troncos que gemerem

Contra sua natureza se meterem.»

 

Imagem: Duarte Botelho