Jornal de Notícias – 08/07/2016

Quem descobriu, afinal, o Brasil?

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Sérgio Almeida


E se o Brasil não tiver sido descoberto por Pedro Álvares Cabral, como nos transmitiram desde sempre os manuais escolares, mas sim por um navegador hoje quase incógnito chamadoDuarte Pacheco Pereira? Este é o ponto de partida do primeiro romance de histórico deDuarte Nuno Braga, um apaixonado pelo mar e pelos livros que não duvida de que a História está repleta de “inverdades oficiosas”.


Como surgiu o interesse pela vida de Duarte Pacheco Pereira e, por arrasto, a ideia de criar uma biografia romanceada?

A descoberta do Brasil esteve sempre envolvida em mistério e é um assunto que me despertou um interesse redobrado, até porque também vivi naquele país, que considero fascinante. Quando começamos a pesquisar sobre o tema, torna-se incontornável a abordagem de que os portugueses lá passaram antes da viagem de Cabral, em 1500. E se há um nome comum às diferentes teorias, é o de Duarte Pacheco Pereira. À medida que fui encontrando pormenores da sua vida tornou-se claro que muito poderia ser escrito sobre aquele herói nacional, ao qual a História, provavelmente por razões políticas, não terá dado o lugar de destaque merecido. A maioria dos cronistas da época quinhentista não pouparam nos elogios àquele navegador, mas a verdade é que acabou por cair no esquecimento.


A tese de que foi Duarte Pacheco Pereira a descobrir o Brasil é defendida por alguns historiadores, mas é claramente minoritária. Como se explica que, perante a existência de provas documentais nesse sentido, subsista a tese de que foi Pedro Álvares Cabral o autor do feito?

Eu tinha essa ideia preconcebida. No entanto, estou convencido de que existem muitos historiadores a defender a teoria. Veja-se o caso do Prof. Jorge Couto e Prof. Contente Domingues, conceituados historiadores portugueses, que escreveram sobre o assunto. É claro que nas escolas continua a atribuir-se a proeza a Pedro Álvares Cabral. Devo salientar, contudo, que não deixa de ser referida a possibilidade de que os portugueses poderão lá ter estado anteriormente. Apesar de tudo, tenho algumas dúvidas se o assunto é devidamente aprofundado. Note-se ainda que, segundo alguns historiadores, na História não existem teorias oficiais, nem verdades absolutas. O que existem são correntes de pensamento, umas mais conhecidas e aceites do que outras.


Mais do que um navegador ou descobridor, ele era acima de tudo um combatente?

Naquela época os recursos eram escassos e homens como Duarte Pacheco Pereiraeram muito polivalentes. Ele não era só um navegador ou descobridor. Era cosmógrafo, um estratega militar, um soldado, um gestor, um governador, um lutador e até empreiteiro. Repare que, por exemplo, na descoberta do Brasil terá sido capitão da armada, na Guiné foi governador, em Tordesilhas foi testemunha oficial, em Cochim lutou contra o samorim com a sua própria espada, construiu uma fortaleza com as suas próprias mãos, definiu a estratégia de combate, que venceu. Nos dias de hoje é quase impensável alguém ter capacidades tão distintas.


Terminou o livro a admirar mais o homem?

A minha admiração por Duarte Pacheco Pereira não parou de crescer desde que escrevi as primeiras linhas do manuscrito até ao dia em que se transformou em livro. De uma certa forma, sinto que herdei a missão de enaltecer o seu nome. Sempre que o seu nome é referido, quer pela imprensa, quer nas redes sociais com base neste romance histórico, encho-me de orgulho por ter contribuído para o seu enobrecimento.


Acredita que a História está repleta de muitas outras “inverdades oficiosas”?

Estou convicto disso mesmo. Repare que nos dias de hoje, nem sempre nos contam de forma transparente aquilo que se passa na atualidade. Ora quando o presente se transformar em História, existirão sempre “inverdades oficiosas”, como lhe chama. Seria presunçoso da nossa parte acreditar que não existem muitas histórias semelhantes à espera de serem clarificadas. Cabe aos historiadores, de uma forma científica, ou aos romancistas, de uma forma bem mais informal, descobri-las, estudá-las e publicá-las. A História é uma ciência dinâmica, em constante evolução e é também esse facto que a torna fascinante.


Recriar a vida sentimental do navegador foi a parte mais desafiante do livro, dada a natural inexistência de documentos?

Não considero que essa tenha sido a parte mais desafiante, até porque é onde existe mais espaço para o romancista ficcionar. É óbvio que é necessário enquadrar os diálogos, os costumes e as tradições da época. Factualmente, Duarte Pacheco Pereira foi casado com a filha do secretário de D. Manuel I. Segundo a lenda, o navegador conheceu uma jovem indiana que se apaixonou perdidamente por ele. Com esta informação disponível torna-se mais simples balizar o enredo e adaptar à História, dando-lhe mais tensão e profundidade sem, no entanto, descurar a envolvência histórica.


Regressar à nossa História é uma possibilidade em aberto no futuro?

Sem dúvida. O romance histórico é um género literário que me agrada muito pelas duas vertentes: obriga a um estudo minucioso dos acontecimentos que me permite enriquecer o meu conhecimento e dar a conhecer aos leitores o resultado dessa investigação e, claro está, ter uma abordagem ficcionada que, embora dentro de determinados limites, oferece a possibilidade de colorir a História de uma forma romanceada


Que figura gostaria de biografar?

O meu próximo trabalho, sendo também um romance histórico, não se fixa numa figura tão mediática como terá sido Duarte Pacheco Pereira, mas sim num acontecimento histórico ocorrido em Portugal no início do século XX. No contexto regional em que se passou teve uma grande relevância, mas foi, infelizmente, esquecido pela História. Creio ter encontrado, de uma certa forma, o meu caminho na escrita, que passa certamente pelo avivar das histórias esquecidas dos nossos antepassados e que mereciam um lugar mais destacado no conhecimento do público. De momento, não posso ainda revelar qual o acontecimento histórico do próximo livro.


Uma das mais-valias do livro são as descrições marítimas e de navegação bastante pormenorizadas. Ser um apaixonado pelo mar foi uma vantagem durante a escrita do livro?

Ser um apaixonado pelo mar foi um importante contributo e uma obrigação ainda maior para conseguir o maior rigor possível na descrição. As obras literárias do Almirante Gago Coutinho, Prof. Contente Domingues e até os diários de bordo de Cristovão Colombo, entre outras, foram essenciais para recriar o ambiente, as rotas e as técnicas utilizadas a bordo das embarcações. Não deixa de ser gratificante escrever sobre um assunto que nos é muito querido e verificarmos um gosto acrescido por parte do nosso público na leitura dessas passagens.

Artigo original: http://comunidade.jn.pt/blogs/babel/archive/2016/07/08/quem-descobriu-afinal-o-brasil.aspx