Entrevista com Manuel Monteiro

«Tinha entregue» ou «tinha entregado»? Pelo visto, a língua portuguesa não tem sido muito bem tratada. Recentemente, Manuel Monteiro, que é formador profissional de Revisão de Textos, jornalista, revisor e autor, publicou o Dicionário de Erros Frequentes da Língua, que tem suscitado o interesse de muitos leitores. Todos nós estamos presos a muletas, muitas vezes erradas, que por se ouvirem e lerem com tanta frequência, nos fazem acreditar que estamos a falar correctamente. Conheci o Manuel Monteiro, e claro, não resisti a entrevistá-lo.

dicionario

Manuel Monteiro, muito obrigado por concederes esta entrevista. Como surgiu este gosto pela língua portuguesa?

Aprender palavras novas alarga-me a alma, eleva algo dentro de mim. Emerge ao espírito algo que estava latente, mas que não tinha forma, era difuso. É difícil explicar, as palavras são curtas para as nossas verdades mais fundas.

Lançaste recentemente o Dicionário de Erros Frequentes da Língua que denuncia os erros mais comuns. São apenas as pessoas comuns que os cometem, ou são também visíveis em comunicação pública?

São erros diários na linguagem pública. Qual o político ou jornalista que não emprega «ter lugar» no sentido de «acontecer»?, sendo o seu significado «ter cabimento». Quantas digníssimas figuras não escrevem «em anexo» nas missivas electrónicas?

Em o Dicionário de Erros Frequentes da Língua é possível ler o seguinte texto:
Em anexo
Vírus linguístico do mundo digital. Enquanto adjectivo, «anexo» significa «apenso, ligado a, junto a, contíguo, incorporado, atado, preso». O documento anexo. As imagens anexas. Nunca «em anexo». Como não diríamos «o ficheiro em apenso», «o ficheiro em incorporado». Querendo utilizar-se enquanto nome, diga-se que o «anexo contém tal documento ou refira-se «o ficheiro no [em + o] anexo [nome]». Corresponde ainda à primeira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo anexar. «[Eu]» anexo os documentos que me solicitou.

Quais são as principais razões para esse fenómeno?

A tecnologia. Temos uma pletora de comentários nas redes sociais, temos de responder a muitos SMS, a muitas mensagens electrónicas e temos de o fazer muitas vezes de forma premente – essa vertigem não permite fazer amor com as palavras. E depois há todos aqueles ícones, o LOL, a escrita abreviada, os capas e os xis. E será um truísmo dizer-se que a palavra vai perdendo o fulgor para a imagem. Permite-me citar Theodore Kaczynski (Technological Slavery): « The entertainment industry serves as an important psychological tool of the system, possibly even when it is dishing out large amounts of sex and violence. Entertainment provides modern man with an essential means of escape. While absorbed in television, videos, etc., he can forget stress, anxiety, frustration, dissatisfaction. Many primitive peoples, when they don’t have work to do, are quite content to sit for hours at a time doing nothing at all, because they are at peace with themselves and their world. But most modern people must be contantly occupied or entertained, otherwise they get “bored,” i.e., they get fidgety, uneasy, irritable.» Ademais, os dicionários digitais não têm a qualidade dos dicionários antigos da língua que sobrevieram ao tempo, como a Wikipédia não tem o rigor – está a quilómetros e quilómetros – de uma enciclopédia em papel. São, contudo, essas fontes de longe mais consultadas! Conheço pessoas que se riem quando falo de consultar a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. As pessoas não imaginam a quantidade de erros ou, eufemisticamente falando, de «desvios da norma» dos dicionários digitais, que rapidamente abonam qualquer coisa que seja dita com o significado que a moda lhe atribuir. Se se começar a dizer «batata» para exprimir algo «agradável», aí estará nos dicionários digitais amanhã. Vê isto e espanta-te: http://www.dicio.com.br/reque-reque/

Naquele sítio, pode ler-se:

Significado de reque-reque

m.
Instrumento de fricção, usada por pretos.
(T. onom.)

“Pelos vistos, desde há imensos anos atrás que a saúde ao nível da língua portuguesa está mal e porcamente.” A frase anterior pode parecer correcta para algumas pessoas, mas não é bem assim, pois não?

Pelo visto; a não coabitação de «desde há»; «imensos» só se cada um dos anos fosse imenso; remover o «atrás»; substituir «ao nível», dado que não há nenhum nível mensurável e objectivamente definido; mal e parcamente.

Que tipo de erros ouves e lês com maior frequência e que mais te perturbam? Para alguém atento como tu, não deve ser fácil conviver com isso…

São tantos… Eleger meia dúzia é tão difícil! O que mais me perturba é o «já chegas-te a casa»? É capaz de matar uma paixão num instante. Perturba-me que a capacidade de metaforização esteja progressivamente associada à tecnologia. «Tens de fazer reset do que ele te disse», «certo, já fiz refresh», «tenho de fazer um update sobre o assunto». A técnica deixou de ser instrumental, uma instrumento que se usa e ponto final!, passou a ser um fim em si mesmo. Perturba-me também a ressonância religiosa da tecnologia, como «salvar» um documento, «estamos todos ligados» – religião é precisamente religar.

No que diz respeito à literatura nacional, os autores portugueses escrevem sem erros?

Não quero criticar colegas. Não há livros sem erros ou, mais bem dito, não há garantidamente livros sem gralhas. Gralha implica ser nítido que o erro não deriva do desconhecimento.

Por vezes, fico com a ideia de que certos livros editados não foram devidamente revistos. Há falta de revisores?

Há cada vez mais editoras a dispensar revisores para poupar nos custos. Sobre isso, acresce, nos últimos tempos, uma procura do preço mais barato em detrimento da qualidade.

O trabalho de um revisor é muito minucioso. Chega ao ponto de ler cada palavra, letra por letra. Como é que ele consegue, ao realizar este tipo de leitura, não descurar do próprio conteúdo?

Com treino, paciência, concentração e amor à leitura. O revisor tem de ser como o gigante da mitologia Argos, que tinha cem olhos espalhados pelo corpo. E nenhum deles pode adormecer. O olho dos particípios passados, o do infinitivo pessoal e impessoal, o do clítico, o das palavras repetidas, o da formação de plurais de nomes compostos, o dos pleonasmos não intencionais e tantos outros.

Que conselhos podes oferecer aos vários profissionais da escrita, para que possam melhorar a qualidade dos seus textos?

Ler Rodrigo de Sá Nogueira, Vasco Botelho de Amaral, Napoleão Mendes de Almeida.

 

Sobre Manuel Monteiro

manuel matos monteiro 1

Nasceu em Lisboa em 1978. Trocou os números pelas letras, quando, depois de se licenciar em Economia, tirou uma pós-graduação em Jornalismo (ISCTE) e um curso de Revisão de Textos, na Universidade Católica.

Já trabalhou como revisor literário da Editora Objectiva, da Planeta Editora, da Pergaminho, da Dinalivro, da Pedra da Lua, entre outras, durante oito anos, actividade que continua a exercer.

Foi colaborador do Ciberdúvidas. Exerce também a actividade de jornalista, sendo director da revista Portela Magazine e tendo já escrito para a Sábado, Os Meus Livros, O Independente, A Capital. Como autor, tem obra publicada na área da ficção (no ano de 2012, O Suave e o Negro pela Quidnovi), do conto e da poesia. Venceu alguns concursos literários, dos quais se destaca recentemente o Novos Talentos FNAC Literatura 2012.