Entrevista com Pedro Jardim

 

Pedro JardimSe os leitores de policiais ainda não se depararam com “O Monstro de Monsanto” é porque andam muito distraídos. Tenham cuidado pois ele anda em toda a parte. E nós fomos falar com o seu autor Pedro Jardim, que não consegue esconder o entusiasmo.

 

Sociólogo, pintor, chefe de polícia e escritor. Como consegues conciliar toda essa actividade?

É verdade, Duarte! E não só! Falta ainda mencionar os meus papéis sociais de marido e pai. E pergunto eu (de facto): como se consegue ser marido, pai, chefe de polícia, sociólogo, escritor e pintor (apesar de não pintar há um par de anos)? Ora pois bem. Poderei responder e dizer que tudo tem a ver com aquilo que escolhes, com aquilo que escolhemos ser, que nos faz sentir bem. Essa escolha vai, por sua vez, desdobrar-se em outras escolhas, em diferentes caminhos, que nos marcam e moldam enquanto persona. E essa persona, esse Eu, neste caso, não sabe ser, não sabe existir, se não for isso tudo. São todos esses pedaços de Pedro que fazem de mim o que sou hoje. Se consigo conciliar tudo? Sim, consigo, e faço-o com imenso gosto. Se pensarmos um pouco em Fernando Pessoa – um dos meus poetas favoritos, senão o meu poeta de eleição –, imaginamos, sem qualquer sombra de dúvidas, numa multiplicidade de seres, de sentires, de haveres. Sou um pouco assim. Existe em mim um Joaquim Pedro que é colega de escola e faculdade; um Barradas para os colegas de trabalho e um Pedro escritor, pintor, pai e marido, filho e irmão. Se amas aquilo que fazes, se corres e não te cansas – como diz o ditado popular –, se esse desdobramento de papéis te completa, se as máscaras que usas são a tua essência; então, porque não sê-lo? É difícil, eu sei; trabalhar por turnos é muito complicado. Contudo, apesar disso, vou conseguindo conciliar o meu trabalho e as inúmeras apresentações que tenho, sobretudo, nos agrupamentos de escolas, bibliotecas e livrarias que vou com o meu livro de literatura para infância Gigante Gigantão. Aquele que estou a promover na comunidade escolar este ano lectivo. Já estou perto das 30 apresentações este ano. Isto, não contando com as apresentações do thriller que acabei de editar, O Monstro de Monsanto e as entrevistas que tenho marcadas devido a essa edição. A minha agenda é muito apertada, confesso. Mas os bichos-carpinteiros não me deixam estar quieto; é como se a adrenalina fosse o meu sangue e se o meu sangue não soubesse viver sem ela. E não é precisamente isso que nos mantém vivos?

O Monstro de MonsantoO teu thriller “O Monstro do Monsanto” está em destaque em todas as livrarias, na TV, na rádio. Qual o teu segredo para tanto mediatismo?

O Monstro de Monsanto é o meu primeiro romance, apesar de ser a minha quinta obra literária. Esse “mediatismo”, “visibilidade”, deve-se a alguns factores. Poderei dizer que depende, claramente, de um percurso perfeitamente articulado. Um percurso que todos os livros deveriam ter, ou, pelo menos, mereciam ter. Em primeiro lugar, deve-se – para mim o factor mais importante – ao facto de ter uma editora que acreditou no projecto desde o primeiro dia. E quando se fala numa editora como a Esfera dos Livros, é ter o privilégio de trabalhar com uma equipa extremamente capaz, que divulga, que está presente, que faz chegar o livro onde é preciso, que acredita. E para se acreditar é necessário ter uma paixão enorme, inegável. E isso faz toda a diferença. O autor tem de ter valor, sim. A sua obra tem de deixar uma marca, também. Convém ser diferente, sem dúvida. Se assim não fosse, como chegaríamos nós (autores) aos leitores? Mas sem uma editora assim, seria mais complicado. Sem pessoas como a Sofia, a Rita, a Margarida, o Rui, não, não chegaria muito longe. Daí dizer que sou um privilegiado. Tenho conhecido pessoas fantásticas neste meu percurso enquanto escritor. Depois de vencer o prémio Mais Literatura 2013, conseguir uma edição com a Esfera dos Livros foi, para mim, um enorme reconhecimento. Com eles sinto que chego ao leitor, com a sua ajuda vejo o meu livro em destaque em todas as livrarias e grandes superfícies comerciais, que tem estado nas novidades literárias de algumas revistas e jornais nacionais, que passa nos noticiários das rádios e programas de televisão, que é falado na rua, que passa de mão e mão, que é lido. Não quero parecer um falso modesto, julgo que devemos dizer as coisas nos momentos certos, mas não tenho segredos para essa tal “visibilidade”. Ela não seria possível sem parceiros à altura e sem trabalho, muito trabalho. Aqui não há segredos; há a Esfera dos Livros. Em segundo lugar, poderia destacar o facto de ser polícia e de ter escrito um policial. Além de ser chefe de Polícia, tenho experiência em investigação criminal e isso aguçou a curiosidade dos leitores, dos livreiros e da comunicação social. Ainda no outro dia falava com o escritor Alexandre Honrado que me disse: “Pedro, o teu romance tem andado de mão em mão e todos gostam. Julgo que és o primeiro polícia a saber escrever policiais.” E eu fiquei sem palavras. Uma pessoa de enorme valor, com um percurso inegável no mundo literário, dizer-me isto assim. É de ficar sem palavras. Eu gosto de acreditar que escrevi um livro diferente. Que por esse motivo está, aliado à ajuda e experiência da Esfera dos Livros, a ter essa dita “visibilidade”.

Ouvi numa entrevista recente o teu apelo aos leitores para darem uma oportunidade aos escritores nacionais. Achas que os autores portugueses não são convenientemente valorizados?

Peremptoriamente, não considero que os autores não sejam reconhecidos. Existem portugueses de grande valor, escritores conhecidos e reconhecidos mundialmente. O meu ponto de vista prende-se com o facto de que temos valores que não são aproveitados, que apesar de mostrarem valor, não são ouvidos, que não chegam onde deveriam chegar. Muitos têm de pagar do seu bolso para editar. No mundo editorial, é difícil dar o passo e ser reconhecido, é necessário muito trabalho, muito empenho, muita “estrada”, e isso reflecte-se um pouco no leitor, porque depende da oferta. Quem escreve/tenta editar sabe do que falo, sobretudo os escritores emergentes. Eu sei, depende do gosto de cada um, depende do mercado, da moda, da “onda”; mas quando digo que se deve dar oportunidade aos autores nacionais, quero dizer que existem pessoas que devem ser lidas e que para muitos leitores não passam de perfeitos desconhecidos, porque simplesmente não chegam às livrarias. Julgo que as oportunidades geram confiança e é essa confiança que deve ser depositada nos autores nacionais.

 

Um bom livro encontra sempre uma editora disposta a publicá-lo? Não me refiro aos casos em que os autores pagam a própria edição.

Esta questão, Duarte, vem um pouco no seguimento da pergunta que me fizeste anteriormente. Isto, porque um bom livro pode não ser editado. Ou, por outro lado, é editado mas não chega ao leitor em geral. Chega à família, aos amigos, aos amigos dos amigos nas redes sociais, não mais. Existem aqui duas perspectivas que poderemos retirar desta questão, que se dividem na interpretação do autor e na do editor. Eu não sou editor; já pensei em sê-lo. Os autores não ganham quase nada nos seus livros. Mas, neste momento, só te consigo responder enquanto autor, só consigo dizer-te o que sinto enquanto escrevente, como pessoa que vai conhecendo aos poucos o mundo editorial, apesar de considerar que sou muito novo nestas andanças. Um bom livro encontra sempre uma editora, sim encontra. Encontrar, encontra. Mas pode não ser editado por diversas razões; poderei elencar algumas: não ter a qualidade exigida; o autor não ser suficientemente conhecido; questões de planeamento/estratégia; número de projectos em lista de espera; a obra não se enquadrar nas colecções implementadas pelo editor. Isto não considerando, tal como me pedes, os casos em que o autor paga para editar. Isso é outra conversa e, nesses casos, os livros são maioritariamente editados porque a meta e os objectivos (na minha opinião) também são diferentes. Um editor pequeno não tem as mesmas “armas” que um grande editor, não tem a mesma máquina, não possui, sequer, a mesma distribuição. O mundo editorial pode ser, em certa medida – talvez para quem não conhece o meio, ou pelo senso comum –, encarado como sendo um pouco elitista. Como se fosse um nicho onde só alguns conseguem entrar. Que só se conseguem edições através de conhecimentos de amigos, que conhecem outros amigos e que esses, por sua vez, conhecem editores. Não concordo; falo por mim. Tudo o que tenho conseguido tem sido com muito esforço, com muita dedicação, com muito empenho. E se o livro for realmente bom, vai haver sempre um editor disposto a publicar. Desde que a variável constante se mantenha: é um bom livro, todas as outras variáveis dependentes (constrangimentos para a não edição) serão facilmente ultrapassáveis. Quando existe vontade e se tem a matéria-prima, tudo se consegue. O importante é não desistir.

 

E-book ou papel? O que nos reserva o futuro?

Face ao suporte, sou antiquado (em sentido figurado). Apesar de ser adepto das novas tecnologias, quem me tira um livro em papel, tira-me tudo. O livro para mim tem de ser sentido, cheirado, folheado. Enquanto objecto, o livro é para mim um tesouro. Escolho o papel, claramente. Agora, se me perguntares: e isso é pensar de forma responsável? Aí, responderia que não. Estou a ser egoísta. O futuro já se vê no presente: as constantes alterações climatéricas, a escassez de recursos, o desequilíbrio e as clivagens entre as nações/populações/comunidades, a desflorestação, o desmesurado crescimento demográfico mundial. Tudo isto são ingredientes catastróficos que poderão, um dia, sentenciar o fim do livro em papel, do livro como sempre o conhecemos. Prevejo que, com o tempo, o livro em papel irá dar lugar ao e-book, apesar de a grande maioria ainda preferir, como eu, a versão em papel.

 

Que importância teve no teu percurso enquanto escritor o curso de escrita criativa? E que outros factores foram também determinantes?

Eu sempre fui estudante. Desde que me conheço que o sou e vou continuar a sê-lo. A minha vida tem sido uma persistente formação contínua. Comecei a trabalhar com 16 anos para ajudar os meus pais e não foi isso que me impediu de continuar a estudar à noite e terminar o secundário. Vim para Lisboa e, quando ingressei na Polícia, continuei a estudar e tirei vários cursos de especialização, entre eles: o curso de investigação criminal. Cheguei a chefe de Polícia, decidi entrar na universidade e tirar o curso de Sociologia. É claro! Mais tarde, quando me confrontei com o facto de que teria de ter um percurso sério na escrita, lá fui eu tirar uns cursos de escrita criativa. Não tirei um, tirei alguns. Se foram suficientes? Diria que não. Aprende-se imenso, sempre. Os factores intrínsecos: a minha própria vida, a minha predisposição, a minha ânsia de querer fazer bem, de aprender. Mas considero que os factores que mais influenciaram o meu percurso foram, sem dúvida, aqueles que estão ligados a esses cursos: àquilo que se aprende e se nutre ao nível do “conhecimento”. É como desmontar o mundo, fazer o pino, ou revirar as nossas ideias e pensamentos. E isso faz falta, muita falta. Por outro lado, sem esses cursos, nunca teria conhecido a Margarida Fonseca Santos, o João Tordo ou o Pedro Chagas Freitas. É certo de que ninguém nos ensina a escrever, escrever no sentido da forma como cada um escreve, o escrever enquanto identidade. Isso é muito nosso, como se fosse uma impressão digital. Mas que esses cursos nos abrem os horizontes, que nos ajudam a melhorar, que nos mantém atentos àquilo que é mais importante, que nos amadurece, sem dúvida alguma. No meu caso, ajudou imenso e cimentou o meu percurso enquanto escritor.

Para terminar, que pergunta nunca te fizeram numa entrevista e que gostarias de responder? (E qual a resposta?)

Desculpa, Duarte, mas vou aproveitar este momento para uma célebre pergunta. Achei curioso esta tua abordagem final para esta entrevista e aproveito para brincar um pouco (brincar ao sério). A pergunta seria: o que dizem os teus olhos? (passando a publicidade ao programa do Daniel Oliveira) E eu responderia que: os meus olhos dizem e sentem que as minhas mãos não se cansam de escrever aquilo que me vai na alma, aquilo que me define enquanto: marido, pai, polícia, sociólogo, pintor, escritor. Porque sou como todos e todos podem ser: todas as coisas da vida.

Obrigado pela partilha Pedro. O teu exemplo ajudará certamente aqueles que estão a começar. Aproveito para te convidar a visitar a minha página com o testemunho de outros escritores.

Sobre o Pedro Jardim

Nasceu em Lisboa em 1976. Chefe de Polícia, licenciou-se em Sociologia, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa. Estudou escrita criativa com Margarida Fonseca Santos, João Tordo e Pedro Chagas Freitas. Apesar de ter nascido em Lisboa, foi no Alentejo, desde muito novo, que o autor descobriu o prazer das artes e pela literatura. Vencedor do prémio Mais Alentejo 2013, Pedro Jardim catica os seus leitores com a sua simplicidade, fazendo relembrar, a todos os instantes, as palavras de António Gedeão, de que: “o sonho comanda a vida”.
Bibliografia:
2011 – As Crónicas do Avô Chico, Chiado Editora
2012 – A Senhora da Tapada, Chiado Editora
2013 – O Dragão Rouxinol, Alfarroba Edições
2014 – Gigante Gigantão, Edições Livro Directo
2015 – O Monstro de Monsanto, Esfera dos Livros

Outras contribuições:
2011 – Antologia de Poesia contemporânea, Entre o sono e o sonho, Vol. III, Chiado Editora
2011 – Cem anos – 100 palavras, microconto, vários autores, Universidade Porto
2012 – Antologia de Poesia contempôranea, Entre o sono e o sonho, Vol. IV, Tomo 1
2013 – Colectânea de contos, A Magia das Chaves, vários autores, Edições Vieira da Silva
2013 – Manifesto Anti-crise, vários autores, Edições Vieira da Silva

Prémios literários:
2011 – Premiado a ingressar na obra Cem anos – 100 palavras
2013 – Prémio Mais Literatura 2013, pela revista Mais Alentejo, após votação do público

Website: www.escritorpedrojardim.com

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