Entrevista com Sara Rodi

Sara RodiConheci a Sara Rodi na sua apresentação de “O Livro da Tua Vida” e foi muito inspirador. A Sara, sempre disponível para partilhar a sua experiência aceitou deixar o seu testemunho no nosso blog.

Sara, tendo publicado mais de uma centena de livros, entre eles histórias infantis, romances históricos e mais recentemente “O Livro da Tua Vida” que se enquadra na categoria de auto-ajuda, o que te falta ainda fazer?

Falta-me fazer tanta coisa… Há, de facto, autores que descobrem o seu estilo, definem uma determinada forma de trabalhar os temas que lhes interessam, e são constantes no tipo de produto que oferecem. E isso é óptimo. Mas eu não nasci com o “dom da constância”. Tudo à minha volta e dentro de mim mexe comigo, e sinto permanentemente vontade de fazer milhares de coisas diferentes, a toda a hora. Na escrita e na vida, por dentro e por fora! Já pensei que isso fosse um defeito, hoje acho que é o que é. É o que sou. Talvez um dia seja outra coisa qualquer. Desde que seja autêntica naquilo que faço, e a escrita continuar a ser a expressão da minha verdade, penso que está tudo certo. (ainda que, do ponto de vista da “carreira”, possa dar tudo para o torto…).

Ficção científica. Neste momento ando com muita vontade de escrever ficção científica…

Fazendo uma pesquisa nos principais retalhistas de e-books apenas este teu último título aparece nas listagens. Representa uma viragem para o mundo digital? Já te habituaste a ler nesse formato?

Foi uma opção da editora, que tem vindo a apostar nesses formatos. Eu sempre tive alguma resistência, sou das que gosta do cheiro e do toque do papel, mas ano passado ofereceram-me um Kobo, e efetivamente tem-me sido muito útil, sobretudo em viagens. Depois há ainda a questão ambiental, que hoje em dia, com o planeta no estado em que está, é incontornável. São precisas, em média, 11 árvores para fazer uma tonelada de papel. Ou inventamos uma nova forma de o produzir (e têm surgido novidades neste campo), ou penso que teremos que tender, mais cedo ou mais tarde, para o digital. Até porque é no digital (com os manuais digitais, aulas em iPad, entre tantas outras novidades a serem testadas neste momento) que as novas gerações serão formadas…

É possível viver exclusivamente da escrita em Portugal? Que conselhos podes dar a quem se quer aventurar na magia das palavras?

É difícil viver da escrita em Portugal. Somos um mercado pequeno, com poucos leitores e muita oferta de livros. Se um potencial escritor começar a pensar no que pode ganhar com o seu livro, muito provavelmente não o escreve. Agora, não creio que seja isso o que leva alguém a escrever. Quem escreve, fá-lo porque tem algo para dizer, e sente em si uma estranha pulsão para o comunicar dessa forma. Às vezes isso agrada aos leitores, às vezes não, às vezes falha a editora, às vezes falha a comunicação, às vezes a distribuição… Pode falhar muita coisa pelo caminho, mas se um escritor é apaixonado pela escrita, não é isso que o vai impedir de continuar a escrever.

O meu conselho vai, portanto, nesse sentido: se sentem vontade de escrever, escrevam, no tempo que tiverem disponível. O resto virá com o tempo, a persistência, o mérito e/ou uma pitada de sorte. E se não vier… pelo menos escreveram. Fizeram o mais importante.

Sendo mãe de quatros filhos pequenos certamente que tens de gerir bem o tempo de forma a equilibrar a vida familiar com a profissional. Um escritor tem de ser muito metódico e disciplinado? 

Acho que não tem de ser, há escritores brilhantes que têm ritmos de produção caóticos. Mas eu não tenho hipótese de ser caótica. Para conseguir equilibrar a minha vida pessoal e profissional, sem falhar (pelo menos muito) com nenhuma das partes , tenho de ser muito disciplinada e disciplinar a chamada “inspiração”.

Isto não invalida que não acorde às 4 da manhã com uma ideia, ou que não escreva frases no talão do supermercado, porque não tenho mais nada à mão. Mas fora isso imponho-me prazos e horários, que vou reajustando semanalmente.

Um bom livro escrito por um principiante encontra sempre uma editora disposta a correr o risco? Que passos deve dar o aspirante a escritor para ver a sua obra publicada? 

Infelizmente, não. Às vezes é difícil que um bom livro chegue às mãos certas. As editoras recebem manuscritos todos os dias. Ainda que se comprometam a ler tudo o que recebem, isso pode demorar anos…

O conselho que dou, a quem está a começar, é que participe em concursos. Há vários concursos de escrita para quem não tem livros publicados, e os membros do júri são geralmente escritores ou pessoas ligadas ao mundo editorial, que dessa forma terão acesso ao que escreveram.

Outro conselho que posso dar é criar um blog, onde se possa ir partilhando aquilo que se escreve com os leitores. Isso também ajuda a criar rotinas de escrita, importantes para trabalhos mais longos (como um romance, por exemplo).

Por último, aconselho resiliência. Escreve quem tem necessidade de escrever. Publica quem é teimoso e não desiste facilmente. Regra geral, é esta a realidade.

Que pergunta nunca te fizeram numa entrevista e que gostarias de responder? (E qual a resposta?)

Acho que gostava que me perguntasses para que serve um escritor, e se ele tem alguma utilidade neste mundo tão “funcional”. Os artistas são tantas vezes tidos como gente que não serve para nada… E eu já me senti muitas vezes inútil, de facto. “Qual é o meu contributo para o mundo? Não salvo vidas, não construo casas, não acabo com a guerra nem a fome… Qual é mesmo a utilidade daquilo que eu faço?”

Acho que por isso mesmo escrevi “O Livro da Tua Vida”. Para tentar que as minhas palavras contribuíssem para qualquer coisa, ensinando os leitores a usar as suas próprias palavras como ferramenta para uma transformação pessoal, e depois global.

Sim, as palavras podem ser transformadoras. Transformam quem as escreve e transformam quem as lê. Às vezes ajudando apenas a fugir do dia-a-dia. Às vezes obrigando a refletir, a ver o mundo de uma outra forma. Outras vezes empurrando para a ação. E isso, mesmo não sendo de uma utilidade quantificável, pode ser por vezes tudo aquilo de que o mundo precisa para ficar melhor, mais livre, mais justo, mais verdadeiro.

Não sei se é esta a melhor resposta para a minha pergunta, mas continuarei em busca dela até que ma façam… 😉

Muito obrigado pelo teu contributo. Tenho a certeza que o teu trabalho tem sido muito inspirador para muitas pessoas. Convido-te a visitar a minha página que pretende ser um ponto de encontro de escritores já estabelecidos com aqueles menos experientes, que estão a dar os seus primeiros passos, tal como eu.

Sobre a Sara Rodi

Escreve o primeiro “livro” aos 6 anos, para oferecer à professora, e nunca mais conseguiu parar de escrever… Concluída a licenciatura em Ciências da Comunicação, surge a oportunidade, aos 22 anos, de publicar os seus primeiros romances – “A Sombra dos Anjos” e “Frio” (este reeditado em 2011) – mas envereda depois pela área do guionismo, colaborando na escrita de diversos de produtos televisivos, entre telenovelas (como “Queridas Feras”, “Mundo Meu” ou “Vingança”) e séries (como “Uma Aventura” ou “Bem-vindo a Beirais”), transformando alguns desses produtos em livro (como “O Olhar da Serpente” ou “Dancin’Days).

A maternidade fá-la render-se à literatura infanto-juvenil e hoje é autora de vários livros que apresenta em escolas e bibliotecas, como as coleções “Clássicos a Brincar”, “Leo, o Menino do Circo” ou “Portal do Tempo”. Cria também, com Ana Correia Tavares, a empresa “O Livro da Tua Vida”, que se dedica à escrita de biografias personalizadas com tiragens limitadas. Em 2012/2013 regressa ao romance, com “D. Estefânia, Um Trágico Amor” e “D. Teresa de Távora, a Amante do Rei” (Esfera dos Livros). Publica ainda “Respostas do Céu” (Marcador) e “O Livro da Tua Vida” (Lua de Papel), colaborando ainda na escrita e revisão de diversos livros para diferentes editoras. (sararodi.blogspot.pt/p/livros.html)

Mãe de uma família numerosa, relata no seu blog “Coisas de Pais” (coisasdepais.blogspot.com) as suas peripécias de mãe de 4 filhos, as suas maiores criações…

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