Entrevista com Susana Otão

Susana OutãoA escrita criativa é muitas vezes o ponto de partida para um aspirante a escritor. Tive o prazer de entrevistar Susana Otão, jornalista e formadora do curso de escrita criativa que se demonstrou muito disponível para desmistificar este mundo.

Susana, no curso de escrita criativa ajudas os teus alunos a enfrentar o monstro da folha em branco. Como se pode combater esse monstro?

Escrevendo. Voltando a escrever, a riscar, a deitar fora e a guardar. O estigma da folha em branco é um verdadeiro bloqueador, no entanto temos de o combater. Nas minhas oficinas de Escrita Criativa esse “monstro” começa por estar presente, mas vai-se desvanecendo porque à medida que os exercícios vão sendo desenvolvidos os participantes vão ficando cada vez mais confiantes.

Como é que a escrita criativa pode ajudar os novos talentos?

Estas oficinas não ensinam receitas milagrosas para escrever bem, nem tampouco indicam caminhos infalíveis para o sucesso. No entanto servem como desbloqueadores. Creio que todos os autores passam por processos de experimentalização na escrita. Basicamente estas oficinas servem para experimentar, testar novos caminhos, reencontrar a criatividade… Tudo elementos fundamentais para quem quer escrever.

Que tipo de exercícios é que os participantes vão encontrar?

Os exercícios são variados, muito lúdicos e divididos por algumas temáticas. Se numa sessão testamos uma escrita mais automática, mais virada para o “Eu”, numa outra podemos experimentar os cinco sentidos na escrita, aprofundar a caracterização de uma personagem ou estruturar uma narrativa.

Os autores que já têm uma carreira sólida também costumam participar nesses cursos?

Creio que as oficinas de Escrita Criativa são muitas vezes encaradas como a rampa para alguém se catapultar para a atividade. No entanto, essa não é a sua principal função. Creio que todos aqueles que querem simplesmente voltar a encarar a escrita com alguma pureza, que precisem de um empurrãozinho ou simplesmente que necessitem de praticar uma escrita mais lúdica podem e devem frequentar estas oficinas. Escritores “formados” incluídos.

Alguns dos autores portugueses consagrados são jornalistas. É mais fácil para um jornalista tornar-se escritor do que seria para um matemático ou qualquer outro profissional?

Não sei se é bem assim… Os jornalistas talvez porque já estão familiarizados com as palavras ou porque escrevem com regularidade podem encarar o processo da escrita com maior naturalidade ou talvez até conquistá-lo com maior fluidez. No entanto, qualquer pessoa que possua o “dom” e o alie ao trabalho, creio que conseguirá com facilidade encontrar caminho para as suas histórias.

Há o estigma de que um escritor deve ter mais de 25 anos para poder publicar um livro. Os teus alunos mais novos não têm criatividade e técnica suficientes para ver a sua obra disponível nas livrarias?

Ora aí está uma questão que gera muita controvérsia. Acredito realmente que a maturidade literária se ganha através das experiências, das vivências, dos anos. Por isso não estranho quando algum participante das oficinas de EC me diz que está há cinco ou 10 anos a trabalhar numa história. Está a maturá-la, num processo que não tendo objectivos comerciais se pretende que tenha valor quando finalmente vir a luz do dia. No entanto, existem sempre excepções à regra. E pelas salas da Escrever Escrever já passaram alguns “meninos” que me pasmaram pela sua maioridade na escrita. Há neles sim uma urgência para escrever, para até serem notabilizados, mas que com tenra idade conseguem fazer o que muitos estão anos para tentar alcançar. Talento? Genes? Trabalho? Não sei…mas há cada vez mais jovens a revelarem-se.

Gostas de ler em formato e-book? Que futuro vaticinas para esta tecnologia?

Pessoalmente odeio. Sou adepta das novas tecnologias, mas para ler…eu gosto mesmo é do papel. Folhear e espreitar o final do livro quando me apetecer, segurá-lo no colo, perder o marcador e voltar a ler páginas passadas e o gozo que me dá perder que tempos numa livraria a namorar os livros! Mas será, certamente, o futuro…. mas não o meu…que nada me dá mais prazer do que estar caladinha numa biblioteca a ler um livro e com uma pilha de outros ao lado.

Que recomendações darias a quem tem o sonho de se tornar escritor?

Não desistir. A escrita é um trabalho duro e faz sofrer muito quem se dedica a ela por isso é preciso ser persistente. É, igualmente, necessária muita disciplina, praticar muito de modo a desenvolver as capacidades criativas e literárias. No final gosto de deixar uma frase de Ernest Hemingway aos participantes das minhas oficinas. Hemingway vincava muito a necessidade de escrever com verdade: “Escreve, se puderes, coisas que sejam tão improváveis como um sonho, tão absurdas como a lua-de-mel de um gafanhoto e tão verdadeiras como o simples coração de uma criança”.

Obrigado, Susana. Aproveito para te convidar a ti aos leitores a fazer like nesta página que tem como objectivo inspirar futuros talentos.

Sobre a Susana Otão

Nasceu em Lisboa, em 1977. Na infância, quando lhe perguntavam o que queria ser quando fosse grande, dizia que queria… escrever! Licenciou-se em Comunicação Social, com a imprensa escrita em mente e depois fez-se ao papel. É jornalista e, nos últimos 15 anos, passou por várias áreas da Imprensa Escrita, ao serviço do Jornal de Notícias. Do Desporto, à Política, passando pelo Crime, escreveu muitas histórias, mas ao mesmo tempo e, apesar de saber que a realidade ultrapassa largamente a ficção, foi-se aventurando pelo universo da Escrita Criativa.

Frequentou diversos cursos na área para explorar a palavra e viajar com ela. Participou em várias oficinas onde a imaginação vagueou entre Personagens, Contos e até Guiões para Cinema. Colaborou com grupos de teatro, para os quais escreveu peças infantis e em 2008 juntou-se à Escrever Escrever para abraçar com palavras todos aqueles que vivem felizes neste reino das histórias criativas.

Podem visitar o perfil da Susana Otão aqui.