Excelência Portugal 10/5/2016

capa_confissao_NavagadorDuarte Nuno Braga nasceu em 1975 e é natural de Lisboa. O prémio literário que recebeu aos 14 anos incentivou-o a continuar a escrever. Licenciado em Engenharia Eletrotécnica, fez carreira na área das tecnologias. É autor do blogue duartenunobraga.com, onde se entrega à escrita, ao contacto com outros autores e sobretudo à partilha com os leitores. Dedica-se à formação em escrita criativa. A Confissão do Navegador é o seu primeiro romance histórico.

De que forma chegas a esta personagem histórica, Duarte Pacheco Pereira, e a incluis no teu livro?

Comecei por descobrir “A Confissão do Navegador” através da meditação. Alguns episódios narrados apareciam-me, muitas vezes, em sonhos, como se estivesse a ser chamado para desvendar segredos antigos. Comecei a investigar a vida de diversos navegadores quinhentistas até que conheci a história escondida de Duarte Pacheco Pereira. E, nesse preciso momento, não tive mais dúvidas de que era ele o capitão desta história incrível.

Duarte Pacheco Pereira poderá ser mais um herói ignorado na nossa história?

Não tenho quaisquer dúvidas disso. Duarte Pacheco Pereira terá estado duas vezes no Brasil, antes de 1500. A sua fé, aliada aos seus conhecimentos de cosmografia, foram determinantes. Portugal precisava de conseguir um caminho marítimo para a Índia, tão seguro quanto possível. As aguadas em África eram muito inseguras, devido à hostilidade dos nativos e D. João II necessitava de alternativas. É muito provável que a descoberta do Brasil tenha ocorrido em 1493. No ano seguinte, o próprio Duarte Pacheco Pereira assinava o Tratado de Tordesilhas, que estendia a linha divisória da bula papal em 270 léguas a oeste de Cabo Verde, incluindo assim aquele novo território. No mesmo tratado ficaria salvaguardado um período de carência que concederia a Castela quaisquer terras descobertas. Revelar o descobrimento do Brasil naquela altura seria algo impensável. No seu tempo, Duarte Pacheco Pereira foi um grande visionário e os seus feitos foram notáveis, mas a nossa história não lhe deu o lugar de destaque merecido.

Escrever um romance histórico implica um trabalho e um estudo extenso. O que fizeste para dar corpo ao teu romance?

Este romance demorou cerca de dois anos a completar. Foram muitas horas de biblioteca, a consultar compêndios antigos e o próprio regimento escrito por Duarte Pacheco Pereira. Tive o máximo de cuidado possível nos pormenores. Se num determinado episódio descrevi uma tempestade, é porque existem registos, nesse dia, dessa intempérie. Toda a parte ficcionada foi feita de uma forma não contraditória com os registos históricos existentes. Isto é, o rei pode não ter dado um anel a Duarte Pacheco Pereira, como é descrito no primeiro capítulo. Mas não existe um documento a dizer que não deu. Os factos históricos, por outro lado, são narrados com o maior rigor possível.

Também tive alguma sorte. No desenrolar do romance, o herói tem um amor proibido com Antónia, com quem viria a casar mais tarde. Faltava-me saber se, efectivamente, poderia ser um amor proibido. Fiquei incrédulo ao descobrir que existem indícios de que a família de Antónia terá estado exilada em Castela, por conspiração contra o rei. A nossa história é tão rica que a escrita de um romance acaba por se simplificar. (risos!)

Ganhaste um prémio quando eras mais novo. Ficar tantos anos desligado da escrita fez-te duvidar das tuas capacidades?

Não posso dizer que alguma vez tenha duvidado das minhas capacidades enquanto autor. Desde muito novo que gostava de escrever. Lembro-me de inventar notícias em pequenos bilhetes e lê-los para a família. Durante a adolescência, concorri com um conto a um prémio literário e fiquei em primeiro lugar. Recordo-me de que investi todo o prémio num rádio-transmissor. Gostei tanto daquilo que ganhei um entusiasmo pelas telecomunicações, até hoje.

A verdade é que o universo tem a incrível capacidade de nos devolver oportunidades atrás de oportunidades. E, desta vez, agarrei-a! Creio que o meu problema foi gostar sempre de fazer muitas coisas diferentes. (risos!)

De que forma a tua busca interior – fizeste cursos de meditação, aprendeste astrologia, música, palavras e poesia, viste artes ancestrais, fizeste massagem Thai – te ajudou na tua vida?

Sempre gostei da mudança e de me questionar. A minha busca interior não termina aqui. Creio que acabou de começar. Na minha perspectiva pessoal, este livro é muito mais do que uma obra sobre os descobrimentos. É um guia de auto conhecimento. Creio que muitos leitores encontrarão nele também algumas respostas. Costumo dizer que a coragem e impulsividade, quando coabitam, podem ser explosivas. A minha busca interior ajuda-me a apaziguar essa efervescência. Por outro lado, a vida é para ser vivida, certo? Só temos de encontrar um equilíbrio.

Estavas à espera de tantas solicitações após a publicação de «Duarte Pacheco Pereira – O Navegador que descobriu o Brasil»?

Confesso que não tinha consciencializado quaisquer perspectivas nesse sentido. Nem altas, nem baixas. Vivi com muito amor e dedicação todos os diferentes momentos deste livro. A pesquisa, a escrita, a revisão, a publicação e agora a divulgação. Costumo dizer que a felicidade não se encontra no horizonte, ela mora no caminho da vida. E só poderemos realmente vivenciá-la se colocarmos as expectativas de lado.

Contudo, e sem falsa modéstia, não escondo a minha satisfação por ver as atenções postas em torno desta obra, quer por parte da comunicação social, quer por parte dos leitores.

Queres falar-nos de influências? Que escritores e livros te marcam?

A maior influência é a minha própria vida e a forma como encaro as situações com que deparo. Não há escritor que não tenha um pouco de si nos seus livros. No plano da escrita espiritual, tenho de referir Paulo Coelho, que considero um mestre. No contexto do enredo e das descrições, O Equador de Miguel Sousa Tavares é um néctar. E, se isso fosse possível, gostava de tirar o curso da linguagem própria de Mia Couto.

O que queres dizer ao teu público-leitor e a quem ainda não te descobriu?

«A Confissão do Navegador» é um empolgante romance histórico que nos leva a vivenciar as emoções das viagens marítimas dos descobrimentos e da conquista das Índias. Numa época envolta em segredos, conspirações e amores proibidos, o capitão português, pejado de fé e perseverança, enfrentou a fúria dos oceanos, combateu exércitos poderosos e realizou descobertas de importância vital para o país. Porém, na rota das suas viagens, Duarte Pacheco Pereira descobriu muito mais do que poderia sequer imaginar.

Além de sugerir a leitura do meu livro, gostava de incentivar os leitores a darem uma oportunidade aos novos autores portugueses. Felizmente, existem cada vez mais pessoas a escrever – e bem!

Aproveitem as redes sociais para conhecer os autores, que estão ávidos de receber os vossos comentários e partilharem experiências. Procurem Afonso Reis Cabral, Manuel Monteiro, Célia Loureiro, Sara Rodi, Nuno Nepomuceno.

Leiam autores portugueses, ajudem a cultura portuguesa!

Artigo Original:
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Autor: Rodrigo Ferrão    Data: 10-05-2016
Publicado em: Cultura, Entrevistas