Mehendi – Uma Arte Milenar

Mehndi-designs-for-weddings-2«Naubea, naquela noite, aparentava uma serenidade que eu nunca tinha visto. Não sei se seria mais um dos seus jogos de sedução, mas, se o era, resultava em pleno, pois pareceu-me ainda mais deslumbrante do que nos encontros anteriores.

Os seus pés descalços, que pareciam deslizar pelo chão com a leveza de uma pena, revelavam figuras artisticamente desenhadas, magníficas, floreados curvilíneos e espirais em tons dourados. As mãos e os dedos exibiam as mesmas formas artísticas, com pormenores minuciosamente traçados que se estendiam até aos braços. Olhei fixamente e com vagar para as suas mãos. Estavam divinais. Agradada com o interesse demonstrado, explicou-me:
– Chama-se mehendi. É uma arte milenar. As raparigas indianas fazem-no somente em ocasiões muito importantes.
– E não fica para sempre marcado no corpo?
– Não. Inquietas-te com tudo o que é permanente?
– Começas a conhecer-me melhor. E essa pasta, como se faz? É a primeira vez que deparo com a arte mehendi.
– Pó de henna, água e óleo de eucalipto. O resultado é encantador, não achas? – perguntou com um sorriso cândido.
– Admito que estou rendido. Certamente demorou uma eternidade a desenhar…
Naubea, sempre sensual, transmitia naquela ocasião uma tranquilidade quase perturbadora. Acendeu um incenso que, ao queimar, oferecia uma fragrância muito prazeirosa, típico aroma do Oriente. Depois, afastou os maus espíritos com gestos suaves, delicados. O que quer que Naubea estivesse a preparar, estava a fazê-lo com aprumo, e sem pressa.
– Demorou um dia inteiro. Foram as minhas primas que desenharam.
– Uma obra de arte sobreposta a outra obra de arte – comentei, sem resistir ao encanto.
Sorriu com o elogio e dirigiu-se para uma pequena mesa no canto da sala. Ali se encontrava uma salva de prata com frutos variados: plátanos, mangas, figos, romãs e maçãs.
– Na nossa tradição, as mulheres enfeitam o corpo com mehendi quando desejam agradar aos seus noivos. Por entre as figuras, como estas que vês, escondem as iniciais do nome do futuro marido e até mensagens secretas.
– Confesso que desconheço a língua hindu e o seu alfabeto. Pergunto-me o que terás tu escondido secretamente nessa arte do teu corpo.
– Nunca é tarde para aprenderes, Duarte. Tal como tu me ensinas a cultura do teu povo, eu posso ensinar-te a do meu.
Retirou da salva prateada uma maçã muito vermelha e brilhante e passou por mim a distância suficiente para que eu sentisse o seu perfume fresco. O meu olhar seguiu todos os seus movimentos lentos. Sem desviar a sua cabeça na direção da minha, sentou-se no chão numa almofada diante de mim tal como se sentaria uma sereia e, num gesto rápido e sem aviso, arremessou-me o fruto que acabara de trincar.
– Aceitas esse desafio, Duarte?
Agarrei a maçã com a mão direita num gesto firme, sem a deixar cair no chão. Soltou uma pequena gargalhada.
– Que desafio?
– Uma troca de deuses, culturas, artes e línguas.
– Línguas? Isto é um jogo, Naubea? – perguntei enquanto dava uma dentada na maçã.
– Talvez… Não imaginavas que uma mulher como eu desse tanto trabalho, pois não?
Com a ponta dos seus dedos, generosamente enfeitados pelo mehendi, procurava seduzir-me, fazendo-os deslizar vagarosamente ao longo da sua pele, desde a mão até ao braço.
– Creio que Adão teve o mesmo problema com Eva – respondi, sereno. Por uma vez, senti-me dono da situação, ali sentado ao seu lado, tentando disfarçar o meu interesse. Queria jogar aquele jogo de sedução e de troca de culturas. – Provavelmente não deveria ter trincado a tua maçã.
– Não te preocupes, que esta não é venenosa. Também as nossas maçãs têm origem num jardim secular que um antigo sultão de Deli mandou plantar. Porém, nesse jardim nunca existiu nenhuma serpente – tocou com a língua no meu ouvido e deixou-me arrepiado. – Além disso, já provei a maçã e achei-a deliciosa.
Podia não haver uma serpente nos jardins de Deli, mas seguramente existia uma em Cochim e estava a sibilar bem perto do meu ouvido. As nossas vozes baixaram de tom, transformando-se em sussurros. As batidas dos corações fizeram-se ouvir entre os jogos de palavras. Os olhares falavam mais do que os lábios e os gestos encheram-se de tensão.
– Deliciosa, sim, mas o veneno não se encontra na maçã, está em ti.
Sorri para disfarçar o nervosismo que começava a sentir. Nunca tive jeito para aqueles jogos.
– Além de venenosa, achas-me deliciosa, é isso? – testou-me ela, colocando os seus lábios a um dedo de distância dos meus.
Não me mexi.
– Estava a falar da maçã, que é deliciosa. Só me apetece morder mais – respondi prontamente.
– A maçã?
– Não, a ti.
– Duarte, cheguei a pensar que te ficasses só pela primeira dentada.
– A ti?
– Não, à maçã. – Riu-se e afastou-se de novo, continuando o jogo.
Há quem diga que Deus está em toda a parte, mas, se isso é verdade, não sei para onde Ele vai quando Naubea está presente, porque ela ocupa todo o espaço. Tudo em meu redor se incendeia e o mundo, tal como é conhecido, desaparece. Assim desapareceu naquela noite.
– Não sentes que o tempo descansa quando estamos juntos? – perguntou-me.
– O tempo, talvez. Mas o mesmo não posso dizer do meu coração, que parece querer saltar-me do peito, sem me dar tréguas ou descanso.
– E o que sabes tu sobre o que sofre um coração, Duarte?
– Sei o que um descobridor precisa de saber. Provavelmente, não menos do que tu, que és ainda muito jovem.
– Creio que estás equivocado. Nunca subestimes o coração de uma indiana. Não imaginas sequer o quanto uma mulher como eu é capaz de sofrer por amor.
– Para além da imensidão de tempo consumido na arte do mehendi?
– Muito para além disso. Dita a nossa tradição mais antiga que uma viúva se deve sacrificar numa fogueira em memória do marido falecido. Um só amor na vida, o primeiro e último…
– Não ias fazer isso…
– Não há nada que eu não faça por amor.
– Por Deus, nem eu sou teu marido, nem sequer és tu viúva – retorqui com um sorriso amarelo.
– É certo o que dizes – fez uma pausa. – Mas sabes uma coisa, descobridor? Antes de nos conhecermos, eu nunca tive o meu primeiro amor.
Mudei logo de feição. Quase senti o calor da fogueira da temível tradição indiana. Naubea soergueu-se e abandonou a sala, certificando-se de que eu desfrutava da sensualidade do movimento do seu corpo. Chegando à ombreira da porta, sem olhar para mim, proferiu num sussurro:
– Há ainda muito mehendi para ser descoberto.
E seguiu para os seus aposentos, sem confirmar se eu ia no seu encalço.
– Naubea! – Consegui que parasse por um instante. – Podemos trocar culturas, artes e línguas. Mas jamais trocarei de Deus.»

in «A Confissão do Navegador» de Duarte Nuno Braga​
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