Não troco dois Paulo Coelho por um Harry Potter

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J. K. Rowling não me leve a mal, mas não posso arriscar. Primeiro, porque o fantástico está longe de ser o meu género literário de eleição, e depois porque não tenho espaço. O risco seria demasiado grande para uma futura troca.

Vivo num velho veleiro de 33 pés. Percorro o mundo à descoberta de histórias e, como lobo do mar, respeito a tradição.

Nas calmarias do oceano, leio contos, acrescento-lhes pontos e, de porto em porto, não mudam apenas as fragrâncias que os ventos sopram, nem as cores das águas cristalinas que me envolvem. Muda também a biblioteca. Os marujos, que muitos vezes não se conhecem, organizam uma candonga de final de tarde. Fazem trocas de livros empoeirados, de histórias que percorreram oceanos, de longas verdades e de curtas mentiras. E eu não fujo à regra. Tenho de escolher entre ler dois Paulo Coelho ou um Harry Potter, porque o espaço é muito limitado e o papel é pesado.

Numa noite mais escura, perguntaram-me se queria As Luzes de Leonor de páginas mil. Tive de recusar, pois em troca queriam três Mia Couto e o rádio de VHF.

Os livros pareciam aumentar de tamanho depois de cada volta ao mundo, como numa corrida de engordecimento. Ou seria o meu velho veleiro a encarquilhar?

Deixei o mar e regressei a terra. Percorri as livrarias. Secção Romance Histórico – o meu género de eleição. Percebi que não foi o meu fiel veleiro que encolheu. Foram os livros que se agigantaram. Podia ter ficado triste, mas conformei-me. Passo a carregar um livro a bordo de cada vez.

Além de marinheiro, sou candidato a escritor. Publiquei um microconto de quatro páginas, em formato e-book. Nem sequer posso trocar por outro livro. Antes de regressar ao mar, resta-me publicar o meu próprio romance. Com sorte e alguma dor, chegará para meio Equador.