No dia em que desliguei o cabo da TV

tv

Há vinte anos confesso que cheguei a ter uma televisão em cada divisão da casa. Não havia refeição que não tivesse o noticiário como som ambiente. Recordo-me de ficar estupefacto quando visitei uns amigos na Alemanha que deliberadamente não tinham sequer um televisor em casa. Com crianças pequenas, não compreendia como podiam ter um serão “normal” como todas as famílias “normais.” Curiosamente foram várias as noites que passei em casa deles e não me lembro de ter sentido falta da caixa mágica(?). Ouvir música, jogar jogos de tabuleiro ou simplesmente conversas intermináveis preencheram aquelas noites frias de uma forma marcante.
Os tempos de hoje mudaram e começaram a existir fortes concorrentes da TV como o DVD ou a internet e o número de televisões em casa lá se foi reduzindo a um único aparelho ainda com lugar de destaque na parede da sala. Várias vezes passava pelo sofá e instintivamente fazia um zapping. Ou dois, ou três sem qualquer interesse. Mas fazia. Como se fosse um vício, sem sabor, sem prazer, quase involuntário. Se somasse todas essas horas perdidas poderia ter passado muito mais tempo a brincar com os meus filhos ou ajudá-los nos seus trabalhos, ou simplesmente… A viver.
Mas havia algo bem pior, que fazia vezes sem fim de forma inconsciente. Usava a TV para controlar o meu filho de quatro anos. “Vê o filme do Peter Pan para eu te conseguir vestir. Assiste à Doutora Brinquedos para tomares o pequeno-almoço, e agora vamos assistir juntos à Cinderela para eu dormir um bocadinho”. O pequenote lá ia na cantiga e começava a ganhar a sua dose de habituação, de vício. Analisado a distância este cenário parece assustador. E é mesmo! Mas no dia-a-dia parecia tudo muito normal. Há cerca de um mês, numa mediação senti que tudo isto era muito errado. Acabámos por concluir que o nosso filho mais novo nunca pedia para ver televisão. Estava na altura de mudar alguma coisa. Chegou o dia. Ao jantar fizemos o anúncio:
– Os pais decidiram desligar a TV. É uma experiência por tempo indeterminado.
– Mas assim não vou conseguir ver a Violetta.
– E eu não posso ver o Gravity Falls .
O mais novo nem se apercebeu da conversa. Passaram-se dias sem ligar a televisão. Brincámos com Legos, jogos de cartas, de tabuleiro, sketchs de improviso, jogos de gestos, música e tantas outras coisas. Nunca nesses dias o pequenino pediu para ver televisão. Mas o mais inesperado estava para vir. A nossa filha de 10 anos contou às colegas da escola acerca dos nossos novos serões de família que responderam:
– Que boa ideia! Que sorte!

Que adultos estamos nós a formar? Que valores estamos a passar aos nosso filhos? Não há nada melhor para uma criança do que um pai e uma mãe que brinquem com ela. Sem o tablet ao lado. Sem o telemóvel. Simplesmente em conexão e total entrega.

Speak Your Mind