Um voto é um voto

batel e naus«Lisuarte subiu a bordo e entrou na minha câmara com um ar solene. Fiquei inquieto.

– Pai, tenho um pedido a fazer-lhe. Rogo-lhe, como mercê dos meus atos nas Índias, que o conceda.

– O que se passa, Lisuarte? Que pedido é esse?

– Permita-me, meu pai, que permaneça neste reino – disse, seguro. – Amanhã, não tenciono zarpar consigo para Lisboa.

Fiquei estupefacto.

– Que devaneio, filho! Que ideia é a tua? O teu lugar é no reino, quero que todos conheçam os teus feitos heroicos e te louvem pelas tuas ações. Ademais, receberás muitas mercês de D. Manuel e eu mesmo rogarei a Sua Alteza para que sejas armado cavaleiro.

– Fico deveras agradecido. Bem sei que o pai me quer bem e que se sentiria orgulhoso com essas retribuições do rei. Mas, como imagina, não foi pelas mercês que me aguardam que eu vim nesta empresa. Foi por si, e pela vontade de me tornar como o senhor. Agora, que alcancei essa aspiração, o meu sonho é continuar a lutar pelo que lutámos. Amo esta terra como amo Portugal, como amo o rei e o amo a si, meu pai.

– Meu filho, és ainda tão novo! Terás muitas oportunidades de regressar aqui mais tarde. Haverá ainda muitas armadas a zarpar de Lisboa que poderão trazer-te de volta às Índias.

– Assim como haverá muitas outras a zarpar das Índias e que me poderão levar de regresso a Lisboa, se assim o desejar. Estou decidido a ficar e, se não me conceder este desejo, que é merecido, não hesitarei em desertar – respondeu, firme.

– Se desertares, estarás a cometer um crime contra a tua pátria, contra o teu rei, contra o teu capitão-mor e, muito mais grave do que isso, contra o teu pai.

– Por isso lhe rogo que me conceda este desejo, evitando-se assim uma tragédia.

– Ousarias vir a enfrentar-me, Lisuarte? – perguntei com firmeza. – Talvez eu seja mais duro do que possas pensar!

– Cuidei que já estivesse a enfrentá-lo, pai.

Confesso que fiquei muito agastado com aquela ousadia do meu filho.

– Insano! Uma decisão dessas tem de ser bem ponderada, Lisuarte! Não podes tomá-la assim, de um dia para o outro.

– Não a tomei de um dia para o outro, pai. Na realidade, creio que a tomei no dia em que pela primeira vez pisei o cais de Cochim.

– Fiz votos de que te levaria de volta a Lisboa. É uma jura sagrada e tu bem sabes como eu defendo a minha palavra até às últimas consequências!

– Mas, assim como fez os seus votos, também eu fiz os meus. E os meus votos obrigam-me a ficar aqui.

– E como ousaste fazer votos que contradizem os meus, Lisuarte? Qual é a verdadeira razão de aqui quereres ficar, tão desterrado? Parece-me que ficaste deslumbrado com os lucros deste lugar e já esqueceste a tua própria terra. Muito desiludido me deixas.

– Como pode o pai pensar tal coisa? Ao contrário daquilo que diz, a riqueza da Índia não é a seda, ou a pimenta, nem outras fazendas. O valor desta terra é ela própria e o admirável povo que a habita. Homens e mulheres, velhos e crianças. As pessoas são o rosto de um reino. Já sentiu o aroma do Oriente? Em nenhum outro reino existe tal natureza. Deus plantou aqui o seu próprio jardim, que caiu pesadamente sobre o meu coração. Quero ficar e certificar-me de que a nossa entrega, os nossos esforço e dedicação não foram em vão.

»Receio que a cobiça da Corte Portuguesa se interesse somente pelos carregamentos que as naus transportam de volta ao reino. Se Portugal deseja, de facto, conquistar a Índia, deverá enviar os seus filhos, rogar-lhes que a povoem, que se misturem e partilhem os seus ensinamentos com o povo indiano. A Índia nunca será realmente nossa se quisermos governá-la à distância. D. Manuel nunca passará de um hóspede, ainda que tolerado, quando poderia ser, na verdade, um respeitado soberano.

»Eu fico, pai. E acredite que espalharei por este reino tudo o que o senhor me ensinou, assim como todos os valores que me passou. A glória dos Portugueses jamais será esquecida na Índia. As minhas mãos serão sempre o prolongamento das suas, assim como a minha fé será o espelho da sua fé. E o amor que tenho por si será espalhado por mim nesta terra. O meu trabalho será a continuação daquele que o pai começou.

»Eu decidi que jamais regressarei com vida a Portugal enquanto não vir com os meus próprios olhos esse sonho realizado. Se quer impedir-me de concretizar este meu voto, terá de usar a sua espada contra o seu próprio filho, porque amanhã só partirei para Lisboa se for registado como artigo de morte desta caravela.

– Não posso tolerar que me desafiem, nem mesmo a um filho, por muita razão que ele pense ter e por mais trágica que seja a minha reação.

O silêncio que se escutou de seguida carregou-nos os olhos de lágrimas. Nenhum pai, por mais rijo que seja, se prepara para tal momento.

– Dessa forma, obrigas-me a usar a minha espada, Lisuarte.

– Tenha misericórdia, meu pai.

Chorámos os dois profundamente pelo que iria passar-se. Confesso que não esperava ouvir um discurso tão eloquente e apaixonado de um filho e, afinal de contas, tão justo. Por um lado, queria deixá-lo ficar a viver o seu sonho, mas, por outro, queria também trazê-lo e gozar da felicidade que um pai pode sentir ao ver um rei ajoelhar-se perante o seu filho, dando-lhe merecimento de honras que poucos homens podem alcançar. Em tantos anos de mar e de guerra, jamais tinha visto um homem com a coragem de Lisuarte. O impossível que acabara de pedir-me era somente o corolário da sua personalidade. Mas teria eu o direito moral de o impedir? Não seria a minha felicidade egoísta indo contra a dele? Não podia travar o ímpeto a um jovem de 20 anos tão lúcido e inspirado que, tal como eu, pretendia conquistar o mundo por uma causa em que acreditava e pela qual lutara. O problema era que, à saída de Lisboa, eu fizera o voto sagrado de não o deixar para trás, e faltar à minha palavra era como trespassar com a espada o meu próprio corpo.

– Perdoa-me, não consigo conter as lágrimas. Sem eu dar por isso, tornaste-te um homem, superaste as maiores ambições que eu poderia desejar para um filho. Agora és tu que me colocas entre a espada e a parede, perante a decisão mais difícil que alguma vez tive de tomar. O meu coração regressará esmagado a Lisboa se não te levar a meu lado; todavia, baterá com um grande orgulho, que me iluminará a alma como o farol de um navio, pela coragem do voto sagrado que fizeste, contra a vontade do teu próprio pai. Compreendo que a tua escolha seja tão difícil quanto a minha. Um voto é um voto. Porém, é o teu contra o meu e assim quis Deus que só um pudesse ser cumprido. Se Ele agora não nos quer juntos nesta vida, tomara que mude de ideias na próxima.

Sem mais demora, desembainhei a minha espada guarnecida, ordenei a Lisuarte que se ajoelhasse, perante o bater do meu coração que se agigantava e as nossas lágrimas que caíam sem cessar.

– Sejamos corajosos e honremos a vontade de Deus. Fica quieto. Será mais fácil se não te mexeres.

Mas era eu quem tremia.»

in «A Confissão do Navegador» de Duarte Nuno Braga